Crítica: com clima de ‘Os Trapalhões’, “Os Parças” é decepcionante

Os Parças (Idem, 2017) de Halder Gomes

A ideia de Os Parças (Idem, 2017) parecia ser muito boa. Uma comédia com nordestinos aplicando pequenos golpes no maior centro comercial da América Latina, a Rua 25 de Março, em São Paulo. No elenco, quatro figuras que conseguiria fazer jus à maior inspiração do longa, Os Trapalhões. Tom Cavalcante como uma espécie de Didi; Bruno de Luca é Dedé, pura escada para a piada dos outros; e a dupla esprevitada, Tirullipa e Whindersson Nunes, fazendo as vezes de Mussum e Zacarias. Nas mãos do diretor afeito à comédia, e ainda mais, à graça nordestina, Halder Gomes – dos sucessos Cine Holliúdy (2013) e O Shaolin do Sertão (2016) o prato estava feito, e pronto para servir.

Mas o que poderia ser uma deliciosa carne de sol com cebola roxa com baião de dois e paçoca, virou um angu de caroço. Raso e quase sem sabor original, está longe de ser apreciado. Em algum momento, até vislumbrei que talvez pudesse ser algo muito engraçado, mas com um fundo de melancolia, algo como “o crime não compensa, mas continuamos na luta”, vide a poesia nordestina declamada em tom de derrota (em cena com ponta de Milhem Cortaz). Mas que logo é esquecida, perdida em meio à trama desconjuntada. E como o próprio elenco e diretor admitiram em entrevista ao Clube Cinema, “não passa de uma grande improvisação, onde praticamente se esqueceu do roteiro”.

Toinho (Tom Cavalcante), Ray Van (Whindersson Nunes), Pilôra (Tirullipa) e Romeu (Bruno de Luca) são obrigados a participar de um golpe orquestrado por Mário (Oscar Magrini). O desafio é nada mais nada menos do que montar uma firma de casamento fajuta para produzir a festa da filha (Paloma Bernardi) do maior contrabandista da Rua 25 de Março, o temido Vacário (Taumaturgo Ferreira). A saída é usar artistas, malandros e materiais da própria 25 de Março – o antro das falsificações no Brasil – para produzir o casamento, com direito até à Fabio Jr. cover vendido como original.

Tom Cavalcante está particularmente incrível em três momentos; malabarista de bandeja homenageando Chaplin, encarnando uma professora de dança linha dura (e que aparentemente batia mesmo no noivo), e, no melhor de todos, tendo um diálogo sedutor ao fazer ao mesmo tempo o homem e a mulher. Mas falha como Fábio Jr. (apesar de já ter o imitado brilhantemente na TV em outras oportunidades), além do fato do cantor ser uma piada recorrente que nunca “acontece”.

Humorista por natureza, Tirullipa tenta fazer graça até respirando. Fênomeno da internet, Whindersson Nunes até que não desaponta. Mas o problema é que as piadas simplesmente não funcionam, e, com um “roteiro” que é apenas uma esquete atrás da outra, o riso é escasso demais para um produto como esse. Bruno de Luca não contribui com nada, e o seu romance é inacreditável, até para esse tipo de filme.

Carlos Alberto de Nóbrega tem momentos inaceitáveis para a sua própria história. Wesley Safadão e seu Safauber (nem o nome é engraçado) é um mote que não funciona, enquanto Neymar Jr. tem uma cena entre-créditos engraçadinha. Melhor mesmo é LC Galetto, como um pobre coitado que “voa pela janela” na piada do Clark Kent, que atua (e faz rir) com os olhos, sem dizer uma palavra.

Em meio as fuleiragens do excepcional Tom Cavalcante, Os Parças aposta no humor pelo humor, mas que não é engraçado. Decepciona em ser popularesco a ponto de explicar uma piada e de (tentar) fazer gracinha com assuntos sérios. Parece um filme feito há 30 ou 40 anos, e que aposta, na maioria das vezes, em piadas sexistas e misóginas. Sim, até a anedota com cocaína eles se esforçam fisicamente para dar certo. Não deu.

Cine Holliúdy tinha alma, muita graça, e é uma grande homenagem ao cinema. O Shaolin do Sertão foi uma sacada divertidíssima (e uma das boas surpresas de 2016). Mas infelizmente o mesmo não acontece com Os Parças. Diretor contratado para tocar um produto pronto, Halder Gomes imprime sua assinatura, com algum mise en scene nas sequências da preparação do casamento, despedida de solteiro e na festa de casamento. Porém, deixou que as improvisações tomassem conta demais de seu filme, a ponto de termos uma história frouxa demais, e risos de menos, fato incomum ao cearense.

No final, Os Parças é uma tentativa frustrada de refazer Os Trapalhões, mas tão originais quanto se fossem vendidos na 25 de Março.

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