Crítica: “Cine Holliúdy” é uma declaração de amor ao cinema (e ao Ceará)

“Cine Holliúdy” é uma declaração de amor ao cinema (e ao Ceará)

É apaixonado pelo cinema? Sinta-se premiado. Não é todo dia que se faz um filme com o coração pulsando a cada frame. E o cearense Halder Gomes conseguiu. Transformou seus sonhos, suas memórias e lembranças em cinema. A resposta é a comédia Cine Holliúdy (Idem, Brasil, 2013), uma legítima molecagem cearense, mas acima de tudo uma ode de amor ao cinema.

Nos anos 70, Francisglaydisson (Edmílson Filho), sua esposa Maria das Graças (Mirian Freeland, ótima) e seu filho Francisglaydisson filho (Joel Gomes) chegam em Pacatuba, pequena cidade do interior do Ceará, e decidem abrir um cinema, o Cine Holliúdy.

Primeiro sua luta é o de juntar os tostões para abrir o cinema. Depois o de passar por cima da burocracia exigida pelo prefeito local (Roberto Bomtempo). E por fim, conquistar o público ao exibir filmes de Kung Fu de quinta categoria, enquanto as pequenas cidades do interior recebem as TVs nas praças, de programação gratuita.

Um filme ingênuo, que reflete seu contexto histórico – os anos 70, a chegada da TV e a resistência do cinema, longe do cinismo dos anos 90 ou a esculhambação dos anos 2000. Sem a pretensão de ser cult, sem a pretensão de ser bonitinho, mas que pode vir a ser tudo isso, apenas pela seu alto teor de legitimidade.

A obra assume a sua simplicidade a partir de uma história que se transforma numa lição de vida. A mensagem clara é ‘acredite nos seus sonhos’, e quando esses sonhos são iluminados na tela de cinema (que pode ser até uma rede branca esticada no meio da praça), tudo se torna mágico.

A linguagem peculiar do cearense e seu “cearensês” enche os diálogos de coisas coisadas. Não entendeu? Coisar é um verbo que serve como substituto daquele que a pessoa esquece ou não quer, exatamente, usar. Entre as expressões estão catrevage; indarrai; mão de pêia; mah; sola no espinhaço; pirangueiro; baitola; pleura peridural; prega rainha… Diabéiss? Pois é, a grande sacada é que a obra de Halder Gomes tem legendas! Umas explicativas outras que apenas ajudam a compreender o que foi dito.

Mesmo com problemas de ritmo e uma dramaticidade desnecessária, o resultado é uma comédia hilariante, romântica até, que brinca com o lúdico e a nostalgia com suas exibições mambembes de cinema no interior do Ceará. Cine Holliúdy é inspirado no curta-metragem, premiado nacional e internacionalmente, Cine Holiúdy – O Astista Contra o Caba do Mal (2004).

Os personagens caricatos são imprescindíveis ao escracho apresentado, se acumulam de forma complementares. Tem de tudo. A bichinha 6 volts, o cego tarado (Falcão), o chato de plantão, o bêbado de butiquim, torcedores fanáticos de Ceará e Fortaleza, o padre, o prefeito e sua esposa (cheia de caras e bocas), o vereador da oposição (Bolachinha), sempre com uma piadinha na ponta da língua, o delegado e seu comparsa, o viciado em artes maciais (Shaolin) e sua namorada ‘ispilicute’, os gêmeos (um gordo e outros magro!?), o pastor, as crianças e o melhor, o ciço (Haroldo Guimarães), que repete tudo que diz, de uma forma engraçadíssima. Francisglaydisson/Edmílson Filho (também no papel do pastor) está sensacional como um legítimo cearense (que é), mas a grande surpresa do longa é Haroldo Guimarães, que detona em todos os papéis que faz.

Arre égua! Portanto depois de ler esse texto, seja você um macho réi ou uma mulher ispilicute, pegue o bêco com uma ruma de amigos e ande Tonha! Eeeeei, Cine Holliúdy é lindo, bonito e joiado, pois “enquanto houver vida, haverá o cinema” (Francisgleydisson).

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