Trilha sonora de filme foi o primeiro trabalho solo feito por um beatle

Paul McCartney grava em estúdio a trilha do filme (Foto: WP)

Por Fernando Vasconcelos Benevides*

Muita gente pensa que as carreiras solo dos integrantes dos Beatles começaram no final da década de 60, época de desavenças que levaram a banda ao fim. Mas, em 1966, quando o grupo estava em plena ascensão, Paul McCartney já fazia músicas por conta própria. O álbum The Family Way (Original Soundtrack), de autoria dele, foi lançando em janeiro de 1967 como trilha sonora do longa de mesmo nome, mas que no Brasil recebeu o título de Lua de Mel ao Meio Dia.

Quase 30 anos depois, o disco foi remasterizado e lançado em CD. Por se tratar de uma obra de McCartney, você pode estar imaginando que o álbum continha canções de rock dos anos 60. Contudo, todas as faixas são apenas instrumentais. Trabalhos eruditos de Paul são conhecidos nos dias de hoje, mas, naquela época, eram novidade. Em The Family Way, as músicas foram executadas pela The George Martin Orchestra e regidas pelo baixista dos Beatles.

As gravações aconteceram nos últimos meses de 1966, quando o quarteto de Liverpool tirou férias de mais de dois meses após uma exaustiva turnê mundial. McCartney aproveitou o tempo disponível para se dedicar à composição da trilha sonora que se tornou o primeiro trabalho musical de um beatle fora da banda. O convite para esse projeto foi dado por Roy Boulting, diretor do filme e sócio da Boulting Brothers, produtora responsável pelo longa.

“Para mim foi muito interessante, porque pude criar algo sozinho. Poder “escapar” da rotina foi ótimo… A ideia de fazer algo solo, só para uma mudança foi bom demais porque tudo nos Beatles é como se fosse um monstro de quatro cabeças. A gente se veste igual, faz tudo igual, e ter composto a trilha foi ótimo para fugir disso tudo por um momento.” Declarou McCartney em 18 dezembro de 1966, dia da estreia mundial de The Family Way.

O filme em questão é um drama romântico de um rapaz e uma moça virgens, recém-casados, e com dificuldades de consumar o matrimônio. Qual mulher não gostaria de ser uma adorável virgem de 20 anos? Mas, para Jenny Fitton (Hayley Mills), essa situação é motivo de tristeza. Já o marido, Arthur Fittoh (Hywel Bennett), é um jovem inteligente, apreciador dos livros e da música clássica, mas que se sente importunado pelo pai, um homem rude e iletrado.

A história se passa num bairro proletário de Bolton, norte da Inglaterra. Nessa época (anos 60), eram raras as casas que tinham banheiro interno. Os protagonistas enfrentam um conflito de gerações familiar, a falta de privacidade e uma sociedade conservadora. O fato de permanecerem virgens mesmo após o casamento é encarado como um tabu pela vizinhança. Como se tudo resumisse a sexo, a pressão externa enfraquece o relacionamento dos dois.

Apesar das tensões, o filme tem uma poética lindíssima, procurando mostrar que o amor e a família estão acima de tudo. O tom bastante melancólico da trilha composta por McCartney ressalta o drama vivenciado pelo jovem casal e ajuda a embelezar o roteiro. A cada adversidade, a variação (compasso) da música se modifica, refletindo o sentimento, por vezes, de desânimo e, em alguns momentos, de esperança da personagem principal.

A beleza tentadora, meiga e angelical de Jenny contrasta com a sensação dela de não ser mais uma mulher atraente. Uma interpretação maravilhosa de Hayley Mills que, na época, era a queridinha da Inglaterra. A atriz ficou consagrada pela atuação de Pollyanna (1960), filme que lhe rendeu um Oscar numa categoria infantil. Vale destaque também a interpretação impecável de Marjorie Rhodes no papel de Lucy Fitton, mãe de Arthur.

A atriz faz o papel de uma mulher preocupada com a felicidade do filho dentro do casamento, temendo que o matrimônio dele se torne tão infeliz quanto o dela. Os demais atores apresentam desempenhos satisfatórios. Apesar dos adolescentes apaixonados que lutam para se manterem juntos, o filme foge de alguns dos clichês mais comuns de qualquer romance. Além disso, chega a ter momentos bem cômicos e engraçados.

Aqui no Brasil, Lua de Mel ao Meio Dia não foi lançado em DVD. Mas, é possível adquirir a versão importada nos sites de grandes livrarias nacionais. Já o CD da trilha sonora, lançado na década de 90, encontra-se esgotado e virou peça de colecionador. Mesmo assim, pode ser encontrado em sebos ou lojas de antiguidades. Vale muito à pena conferir, tanto o belo filme quando a agradável sonoridade da trilha musical.

Curiosidades

A trilha sonora do filme contou com o trabalho de George Martin, maior produtor musical da História, que faleceu no último 8 de março.

No filme, o ator John Mills, pai de Hayley Mills, interpreta o sogro da personagem dela, Ezra Fitton, que é o pai de Arthur Fittoh, personagem de Hywel Bennett.

John Lennon não teve qualquer participação na elaboração da trilha sonora, mas recebeu direitos autorais. Em comum acordo, estabelecido no início dos anos 60, qualquer trabalho dele ou de McCartney teria crédito atribuído aos dois. De acordo com o biógrafo de McCartney, Barry Miles, Lennon se recusou a aceitar dinheiro oriundo da trilha sonora, mas o baixista não aceitou. “Não se faça de rogado. O que importa é o conceito. Inspiramos um ao outro no início. Hoje, compomos dessa forma graças ao trabalho que realizamos juntos”. De toda forma, no encarte do álbum, a autoria é creditada apenas à McCartney.

*Fernando Vasconcelos Benevides é jornalista e historiador.

 

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  1. http://C%20Graco%20Carvalho 8 de maio de 2016 at 20:02

    Eu não sabia da existência deste filme e muito menos do fato de que o Paul já havia feito um trabalho solo em 1966. Eu sempre pensei que o primeiro trabalho solo realizado por um beatle tinha sido a trilha sonora escrita pelo George para o filme Wonderwall, de 1968. Vou atrás deste de 1966! E muito bonito isso que o Paul disse: “inspiramos um ao outro no início. Hoje, compomos dessa forma graças ao trabalho que realizamos juntos”. Belo e verdadeiro.


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