“Novas comédias nacionais são tão ruins que nem podem ser consideradas cinema”, critica Petrus Cariry

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Petrus Cariry recebeu o Tribuna do Ceará em sua mesa de edição (Foto: Fernanda Moura/Tribuna do Ceará)

Filho de um cineasta consagrado por suas narrativas nordestinas, Petrus Cariry é um jovem diretor que consolida a nova geração de cineastas cearenses. Com nove créditos como diretor, roteirista, produtor e montador com curtas e longas-metragens, o cearense já tem 23 prêmios na bagagem, 22 indicações e um novo filme a ser lançado no Festival do Rio. “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois” tem três sessões agendadas no Rio (10, 11 e 12 de outubro), e na conversa exclusiva com o Clube Cinema ele abriu o jogo de tudo um pouco. Sobre seu novo trabalho, de como foi ter um mestre em casa (e de como é superá-lo), da indústria do cinema nacional e do cinema cearense.

Clube Cinema – Como você se constituiu como cineasta, como foi essa formação, já que seu pai é um cineasta consagrado (Rosemberg Cariry)?
Petrus Cariry – Na infância, e eu tenho muito forte na minha memória, acompanhar os sets de filmagens dos filmes do meu pai, tipo com uns 10 a 12 anos. Infelizmente não podia ficar direto, porque tinha aula e tal, mas sempre que eu podia, ia por lá. Mas voltando um pouco no tempo, aos 5 e 6 anos, lembro bem do meu pai ter uma ilha de Super 8 em casa. Então acompanhei ele assistindo os primeiros cortes e montando alguns dos seus filmes na sala da minha casa. Eu tinha acesso também a uma pequena cinemateca em VHS, então cresci vendo muitos filmes e de algum forma isso fica cristalizado na mente, me despertou como amante do cinema. Essa vivência me construiu como cineasta.

Clube Cinema – Mas quando você decidiu ser diretor de cinema? Foi mais fácil tendo Rosemberg Cariry ao mesmo tempos como mestre e pai?
Petrus – Eu sempre quis fazer arte, mas o primeiro sonho foi em ter uma banda de rock. Mas no fim era só um subterfúgio para não fazer cinema. Decidi fazer cinema quanto tinha 20 anos. Acho que demorei a decidir, porque eu sempre tive um medo muito grande de ser comparado ao meu pai. Com um nome consolidado no Nordeste e uma certa cinematografia, eu ficava pensando comigo mesmo “será que vai dar certo?”.

“Decidi fazer cinema aos 20 anos e demorei a decidir, pois eu sempre tive um medo muito grande de ser comparado ao meu pai”. (Petrus Cariry)

Clube Cinema – Mas você não estudou cinema, não é?
Petrus – Pois é. Como disse, cresci imerso nesse mundo do cinema, assistindo muitos filmes. Quando queria ver um bom filme, meu pai ia na videoteca e me indicava. Eu estudei e me formei em Análise de Sistemas, mas do cinema mesmo nunca estudei formalmente, sou autodidata. Mas claro, sempre tive meu pai como meu mestre de cinema, nós trocamos filmes, referências, e conversamos muito sobre a sétima arte e o mercado.

Clube Cinema – Já são nove créditos como diretor de cinema, entre curtas e longas, e em todos você acumula as funções de roteirista, produtor e montador. Você vê isso como uma vantagem de controle sobre a sua obra?
Petrus – Eu vejo como uma espécie de controle mesmo. Inclusive no meu último trabalho (“Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”), eu também acumulei a função de diretor de fotografia. É muito daquela coisa: tudo é minha culpa, minha máxima culpa. Gostando ou não, o que está na tela tem a minha assinatura. E eu comecei fazendo assim nos curtas, e fui me acostumando a trabalhar dessa forma. Pra mim, acabou virando um processo. Mas é importante falar que os roteiros sempre são divididos. Eu, Rosemberg Cariry e Firmino Filho trocamos muitos créditos, tem sempre essa trinca aí. Ou um ou outro. Pelo menos todos os longas foram assim. É sempre bom ter alguém para você discutir o processo.

“O tempo dos meus filmes tem muito de cinema iraniano, mas tem também um pouco de cinema japonês e russo. É um cinema de observação”. (Petrus Cariry)

Clube Cinema – Como você autoavalia a sua evolução da estreia em longas (O Grão, 2007) para o último filme, “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”?
Petrus – Apesar das experiências em curtas, no primeiro longa é aquele lance de tatear as coisas, de criar uma assinatura, e acho que consegui imprimir algo de autoral no drama. E o que permeia é que você quer mostrar a sua marca logo no primeiro filme, e comigo foi em “O Grão” (2007). Quatro anos se passaram e, com “Mãe e Filha” (2011), eu me senti bem mais livre. Era um filme com um orçamento baixo, pois originalmente o orçamento previa um curta-metragem, mas que virou um longa. Mas com isso acabei tendo uma liberdade muito grande ao elaborar a obra. Por não depender de bilheteria, nem resposta direta da crítica, naquele momento era um filme que eu estava com vontade de fazer e saiu do jeito que eu queria.

Já o “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”, eu trabalhei com um orçamento maior, que consequentemente acarreta mais responsabilidades. E mesmo assim o fiz muito livre, no quesito criatividade, sem amarras mesmo. Fiz um drama pesado, com sangue, violência, sexo e muitas questões psicológicas, para instigar o espectador. Eu consigo com ele passear até no cinema de gênero, no meio fantástico e que flerta até com filmes de terror. É difícil até colocá-lo em uma categoria. Acho que é um drama fantástico, o que é totalmente novo para mim. E é bom porque ele não tem apenas uma leitura. Mas como os outros dois filmes, lida com a questão da morte também, e fecha a Trilogia da Morte pra mim, que começou até involuntária.

“‘Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois’ surgiu a partir de um sonho (ou pesadelo!?) que tive”. (Petrus Cariry)

Clube Cinema – Como surgiu a ideia para o roteiro de “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”?
Petrus – O filme surgiu a partir de um sonho (ou pesadelo?) que tive. Eu vi uma imagem de uma mulher sangrando em profusão ao adentrar numa casa. Ela chegava, e o marido dela recebia ela banhada de sangue, acompanhada de uma vara de porcos saindo da casa. O filme todo partiu dessa imagem. E no filme a protagonista é uma mulher burguesa, classe média-alta, que está em crise, tanto no casamento, quanto com a família dela, mas ela tem uma dívida com o passado. E a partir daí as ações se desenvolvem quando a protagonista volta para a casa do pai dela, em Maranguape, que está doente, com câncer. Sem desmerecer os outros trabalhos, plasticamente e tecnicamente eu atingi o meu ápice. A produção tem uma proposta de “mise en scene” bem clara, de uso da luz, das sombras e do ambiente bem trabalhadas. Acho que é o filme nacional que tem mais respiração do cinema contemporâneo.

Clube Cinema – Quais foram os diretores que você mais se inspirou? Quais são suas referências?
Petrus – É difícil citar só um. Pois tem diretores que eu não chega a idolatrar, mas está imbutido com o seu cinema de um jeito que a gente só percebe depois. O final de “Mãe e Filha”, onde a câmera se treme em busca do objetivo final, só depois fui perceber o quanto parece com Evil Dead – A Morte do Demônio (1981), do Sam Raimi. Mas vou listar os faróis pra mim: Stanley Kubrick – sempre vejo 2001 uma vez por ano, Andrei Tarkovsky, Antonioni, Godard, Pasolini, Gláuber Rocha – não que me influenciei diretamente, mas pela liberdade que teve ao criar seus filmes… Tem um diretor que é considerado B, mas que tem um cinema essencial, que é o John Carpenter. Adoro e acho Hallowen (1978), um puta filme. Curto também o Abbas Kiarostami e o Yasujiró Ozu.

Clube Cinema – As narrativas dos seus filmes são sempre comparados a filmes iranianos. Como lida com isso?
Petrus – O tempo dos meus filmes tem muito de cinema iraniano, mas tem também um pouco de Ozu (cinema japonês). É um cinema de observação, de tempos mais distendidos, como o próprio Tarkovsky (cinema russo) fazia. Minha obra é assim porque é um tipo de filme que eu vejo, que eu gosto e que de alguma forma acaba me influenciando também. São filmes com os tempos mais longos e reflexivos mesmo. Realmente bate profundamente em mim, são filmes que saio de casa para ir ver no cinema e é isso que produzo também.

“Tanto o circuito de exibição como o público estão muito viciados em produtos. É um filme sem nenhum risco, sem originalidade, não é nada.” (Petrus Cariry)

Clube Cinema – Já fazem 20 anos da retomada do cinema brasileiro – marcado por Carlota Joaquina (1995). Atualmente temos o cinema de autor relegado e grandes sucessos, mas de extrema pobreza de conteúdo. Como você a industria do cinema nacional hoje?
Petrus – Eu procuro nem pensar muito nisso não. Essa dualidade existe, e eu sei que é importante fazer a indústria funcionar, esses filmes ruins de comédias têm de ser feitos e em qualquer lugar é assim. De Hollywood ao cinema francês, todo lugar tem comédias pavorosas. Não é do nível da Globo Filmes não, que são comédias que chegam ao fundo do poço, mas temos produções rasteiras em outras indústrias também. Eu fico meio triste com isso, porque vejamos, se você faz um filme médio aqui no Brasil – que não é nem o cinema que eu faço, pois sou enquadrado como cineasta de festival, mais autoral e de público bem menor – que deveria fazer de 300 a 500 mil espectadores, hoje não consegue. Faz 30 a 50 mil de público e morrendo. O que a gente vê é que tanto o circuito de exibição como o público estão muito viciados em produtos. O último filme que tentei ver dessas comédias nacionais – que não me recordo o nome e acho melhor até ocultá-lo – estava passando em quatro salas do shopping. Entrei e só consegui ver cinco minutos e me retirei. Não dá. Muito ruim, isso não é cinema. É uma linguagem televisiva ruim. Fotografia ruim, atuações histriônicas… E eu ainda pensei comigo mesmo, “e é isso que dá público”. É um produto muito massificado e que faz 2, 3, 4 milhões de espectadores. É um filme sem nenhum risco, sem originalidade, não é nada.

Clube Cinema – Unifor, UFC, Porto Iracema das Artes, Casa Amarela e Vila das Artes, todos estão disseminando o audiovisual no Ceará e já formaram turmas. O pessoal da Alumbramento filmes, Halder Gomes e e sua trupe estão produzindo, a Ancine contemplou o Ceará com o financiamento de um Núcleo Criativo… Como você vê o momento do cinema cearense e sua cadeia produtiva?
Petrus – É, já temos uma massa criativa bem interessante, o que falta na verdade mesmo é o investimento no nosso produto. Inclusive do próprio Governo do Estado. Formação já está acontecendo conforme você citou, mas tem fruto que você vai plantar agora e só vai colher bem mais na frente. Os cineastas estão fazendo seus primeiros curtas, talvez dê certo, talvez não… Aí talvez no segundo desponte, ou o longa surpreenda. Só tudo isso depende do investimento para produzir. Então só espero que, além da formação, ocorra uma continuidade de investimentos. Foi o que Pernambuco fez e é exemplo no audiovisual do Brasil há mais de 15 anos.

Temos novos talentos aparecendo, Leonardo Mouramateus para mim já é uma realidade. O Halder Gomes soube explorar o filme de gênero (comédia), e que é infinitamente melhor que essas comédias da Globo Filmes. É um mercado que ele soube fazer, e foi importante para mostrar para o Brasil que também conseguimos fazer um filme de mercado, que atinja o público. A metade dos filmes do Karim Ainouz foram feitos aqui, há uma conexão natural com o Ceará. Tem espaço para todo mundo e todo tipo de cinematografia, e eu nem sou contra um tipo de cinema diferente do meu. Mas eu acho que tem de haver mais espaço para o tipo de cinema que eu faço. E com tudo isso, o cinema local tende a crescer com o tempo e ser tão forte quanto o cinema pernambucano é hoje.

“O Halder Gomes soube explorar o filme de gênero, e que é infinitamente melhor que essas comédias da Globo Filmes.” (Petrus Cariry)

Clube Cinema – Você acredita que o aprendiz já passou o mestre? O cinema do Petrus Cariry – com três longas, 23 prêmios na bagagem e outras 22 indicações – já é maior e mais representativo que o do teu pai, Rosemberg Cariry?
Petrus – Acho difícil a gente mensurar nesse sentido, pois são tipos de cinema bem distintos no que se propõem. Eu acredito que não conseguiria fazer um filme como ele realiza, e da mesma forma ele também não faria um filme do jeito que eu faço. O cinema dele é mais alegórico, e o meu é mais contido. Mas sabe que o nosso cinema é muito diferente, mas muito igual, pois a gente trabalha muito junto, troca roteiros, escreve um para o outro, revisa… As coisas se misturam. Mas eu fico feliz que é o meu cinema tem conquistado o seu próprio espaço, principalmente em festivais e boa parte da crítica. E no fundo, acredito que não existe essa comparação de quem é melhor. Eu não sou mais o filho do Rosemberg Cariry, eu sou o Petrus e fico feliz que as comparações já cessaram e é um cinema que respira por si só.

Clube Cinema – Já que você autodenomina seus três filmes como a Trilogia da Morte, agora é hora de trabalhar com a Vida nos próximos projetos?
Petrus – É, o próximo projeto é totalmente vida. Já posso até revelar aqui, será “O Barco”, baseado em um conto do Carlos Emílio Correia Lima, um filme bem mais solar, que flerta um pouco com o universo fantástico, mas é um longa otimista e leve. O “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois” chega ao ápice desses filmes pesados, é um drama muito tenso e sufocante, algumas talvez saiam atá mal, pra baixo, do cinema.

 

Datas de exibição de “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois” no Festival do Rio:

10/10 – Cinépolis Lagoon 6 – 21h30 (Sessão para convidados/Guests only screening)
11/10 – C. C. Justiça Federal 1– 16h45 (Sessão com debate/Debate screening)
12/10 – CCBB – Cinema 1 – 16h00 (aberto ao público)