Mudo e em P&B, “O Artista” brilha com a arte da simplicidade

O Artista (The Artist, 2011), escrito e dirigido por Michael Hazanavicous

Arte da Simplicidade

O filme começa. É preto e branco. Não há diálogos. Somente uma trilha sonora e caracteres que reproduzem os diálogos. Uma banda toca sua trilha dentro de um cinema lotado. Seu astro o acompanha por trás da tela, aguardando ansioso o fim do filme, os créditos e a reação do público. Ao final, aplausos. Mas onde está o som? Não há, pois estamos assistindo um mesmo filme mudo. Em preto e branco. Sem diálogos. E com os caracteres como diálogos. E essa homenagem ao cinema chama-se O Artista (The Artist, 2011), escrito e dirigido por Michael Hazanavicous, e se torna uma experiência única conferi-lo no cinema e absorver a genial arte da simplicidade.

A trama é fantástica, contextualizando com a própria história do cinema. E, 1927 um astro de cinema, George Valentin (Jean Dujardin) é aclamado pelo público e imprensa. Vive a fase áurea do sucesso. Por acaso conhece a figurante Peppy Miller (Bérénice Bejo), e se engraça pela atriz que filme após filme cresce em status. Com a chegada dos filmes falados em 1929, Valentin resiste e continua a investir em filmes mudos. Mas o fracasso não tarda a chegar e o mundo se esquece do astro de outrora. Por outro lado, Miller é uma das estrelas do atual cinema, e as vidas dos dois estão cada vez mais distantes.

Sua projeção em 4×3, um retângulo mínimo que resgata os filmes mudos do início do cinema, é como um olhar carinhoso ao passado. A história da ascensão do filme falado e a consequente decadência do cinema mudo, que leva consigo o seu astro, que não aceita o som, é digno com sua própria linguagem. Após o surgimento do som, no camarim ouvimos o som. Sim! Num perfeito pesadelo, literal, para o protagonista. É digno ao usar os próprios artifícios com maestria sem enganar o espectador.

A direção de Hazanavicous é leve, divertida e até emocional. No estúdio há uma curiosa (e sutil) demonstração visual da história ao mostrar Valentin descendo as escadas enquanto Miller sobre, numa alusão clara do status das carreiras de cada um. A música é genial, narrando o filme em tom e ritmo, com um roteiro simples, mas que funciona como uma declaração de amor ao cinema.

A atuação de Dujardin tem um quê de caricatura, mas brinca com o status do astro de cinema, seu poder com a platéia e sua posição no showbiz. Ao se demonstrar apaixonado, atraído, é puro desconcerto em forma de gente e no desespero é o próprio fundo do poço. Seu coadjuvante é o adorável cãozinho Uggie, uma atração a parte. Bejo faz uma doce Peppy Miller e com carisma conquista platéia e astro. Há ainda as preciosas participações de John Goodman (O chefe do estúdio), Penelope Ann Miller (a esposa), James Cromwell (o motorista) e Malcom McDoweel (figurante).

O Artista é comédia romântica que trabalha com a sutileza a seu favor. Como nas inesquecíveis sequências do primeiro encontro entre o astro e uma mera fã (mas futura estrela), a paquera com as pernas ao ensaiar passos no estúdio, a cena gravada e regravada onde os dois dançam num salão lotado, mas só tem olhos um pro outro, e até mesmo num restaurante entre uma entrevista e a desolação. Até o Bang! Veja e entenda porque a arte é fundamental para a mente, para alma e para o coração. Pode aplaudir. NOTA: 10,0
INFORMAÇÕES ESPECIAIS 

Prêmios: São 59 prêmios e 80 indicações, entre eles, indicado à Palma de Ouro em Cannes, venceu o prêmio de melhor ator; Foi o melhor filme e diretor no Círculo de Críticos de New York; Venceu o Globo de Ouro de filme (comédia ou musical), trilha sonora e ator; Venceu 7 BAFTAs, incluindo melhor filme, diretor e roteiro original; Concorre em 10 categorias no Oscar: melhor filme, diretor, ator, atriz coadjuvante, roteiro original, edição, trilha sonora, fotografia, figurino e direção de arte & cenários;

Publicado originalmente no O Povo Online/Jornal O Povo, em 15/02/2012.