Festival de Brasília: a baianidade nagô da comédia “Café com Canela”

Brasília, 19 de setembro de 2017*

“Café com Canela” de Ary Rosa e Glenda Nicácio: na região do Recôncavo da Bahia, Margarida (Valdinéia Spriano) vive isolada pela dor da perda do filho. Não muito longe dali, Violeta (Aline Brunne) segue a vida entre adversidades do dia a dia, cuida da avó adoentada, mas vive também com a alegria de ter amigos por perto. Quando Violeta reencontra Margarida inicia-se um processo de transformação, marcado por visitas, faxinas e cafés com canela, capazes de despertar novos amigos e antigos amores.

Partindo de uma história simples, onde um grupo de pessoas passam por dificuldades e tem viver a vida de uma forma mais amena junto aos seus amigos, os diretores Ary Rosa e Glenda Nicácio apostam em uma experimentação de linguagem.

Nada que nunca havia sido usado, mas a sua narrativa entrecortada, que se inclui aí até a visão do cachorro/travelling dog, uso de imagens em VHS (com uma filmagem caseira) como flashback (de corte que vai diminuindo e se distanciando em tempo conforme a fita vai avançando), inserções de sonho, variações de aspecto de tela (4×3, 16×9, widescreen), e até a quebra da quarta parede.

O resultado da ousadia, é uma comédia honesta e engraçada, mas que apenas escorrega em suas inserções dramáticas. O que acompanhamos na trama, não é uma questão de esquecer o passado, mas superar os acontecimentos, e levar o que a vida dá de bom.

O elenco é comandada na tela por um protagonismo natural de Aline Brunne, na pela da doce e determinada Violeta, uma grata surpresa. Mesmo que o longa consiga ser levado como um filme leve, o grande alívio cômico é Cidão (Arlete Dias), hilária personagem e seus causos contados. Sua presença em cena salta os olhos, dotada da mais pura baianidade nagô. Completando o trio de destaques, Babu Santana (Estômago, 2007; Tim Maia, 2014). Daquele tamanho, ele quebra tudo como um homossexual apaixonado por um homem mais velho.

Tenho restrições quanto ao peso dramático dentro da história, que não me tocou. Existe uma boa construção cênica da dor de Dona Margarida. O passado dói na sua mente e sua casa é puro desespero opressivo. Plantas mortas, paredes sujas e mofadas, fotos sem rostos, e um quarto fechado completam o clima de enterro eterno. Mas que aos poucos vai se desfazendo.

Há de se falar sobre o uso do Cinema, com C maiúsculo mesmo. O roteirista quis nos dizer o que é o cinema para ele, e colocou na boca de Dona Margarida uma fala sobre o poder do Cinema, encabeçando um diálogo com Violeta. Sim, é bonito, bem escrito, ok, mas falha na escolha exatamente na voz de daquela que não não me convenceu no meio de tudo aquilo. Já a olhadinha de Violeta para o público, achei até previsível, mas sensacional.

É uma história simples, bem construída, que se arrisca até em sua narrativa, mas que se encontra como uma comédia popular, extremamente divertida e que nos leva a fazer exatamente o que a protagonista faz; Um brinde aos encontros. E encontrar “Café com Canela” no Festival de Brasília (Mostra Competitiva) foi algo digno de um brinde.

* Jornalista viajou à convite do Festival.