Crítica: Woody Allen maduro assina ‘Blue Jasmine’ e Cate Blanchett brilha

Blue Jasmine (FOTO: Imagem Filmes)

Após perder seu marido (Alec Baldwin) e todo o seu dinheiro, a agora ex-socialite Jasmine (Cate Blanchett) é obrigada a morar com sua irmã adotiva, Ginger (Sally Hawkins), numa casa modesta de São Francisco. Só resta recomeçar do zero.

A primeira lida na trama de Blue Jasmine (Blue Jasmine, 2013), faz o espectador pensar num filme comum sobre um possível recomeço e, quem sabe uma redenção. Mas o detalhe é que a obra em questão é o novo drama escrito e dirigido por Woody Allen, com uma estupenda atuação de Cate Blanchett no papel-título, e o fator originalidade aparece na forma como é contada, brilhantemente em camadas. Ponto para o cineasta, em fase madura.

Trama reconstruída

Assim como sua protagonista, o filme é cortado ao meio e vai sendo (re)construído a partir de fragmentos do passado e presente. A função de fatiar a trama, intensifica a dramaticidade da obra, que apresenta uma personagem – a princípio fútil e distante do mundo real, para depois de destruída, se reencontra com a emoção. A princípio, o espectador é induzido a acreditar que já sabe de sua história, mas o roteiro ainda reserva descobertas essenciais, que subverte até expectativas.

No quesito recomeço, a questão de um possível novo amor/solução para seus problemas (Peter Sarsgaard), aparece de forma sutil, como por exemplo no figurino. Repare como Jasmine, quase sempre vestida com cores apagadas – branco ou creme, veste o mesmo azul que seu novo interesse, uma suave mudança de astral. O vermelho até aparece, num flashback, mas com a função de perigo.

Vencedora do prêmio de melhor atriz no Círculo de Críticos de Nova York, Cate Blanchett tem grande interpretação, em perfeito compasso de uma vida despedaçada. A base de remédios, falando sozinha, mas mesmo assim, ainda tenta a reconstrução e luta contra o fator peixe fora d´agua para se reerguer. Entretanto, a condição construída pela própria, a faz viver numa eterna corda bamba de emoções. A linha é tênue e dramática.

Elenco de apoio

Como em todo filme de Woody Allen, até o elenco de apoio merece destaque. Sally Hawkins, vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz (comédia ou musical) por Simplesmente Feliz (2008), faz a simples, compreensiva e até ingênua irmã adotiva de Jasmine, com propriedade. Alec Baldwin (indicado ao Oscar de coadjuvante por The Cooler – Quebrando a Banca, 2003), o escroque, funciona ao ser apresentado com um certo distanciamento emocional.

Andrew Dice Clay – o primeiro marido de Ginger, e Bobby Cannavale, seu segundo noivo, tem funções e atuações em condições similares, como as escolhas mais simples de Gignger, que fortalecem seu espírito ingênuo. E Peter Sarsgaard, como uma possível solução do problema de Jasmine, é eficiente.

Woody Allen

Tem uma historinha de um novo amor, mas não é um romance açucarado. Em algumas situações, existe até a possibilidade de sorrisos ao considerar o ‘é melhor rir do que chorar’, mas não é uma comédia engraçadinha. É simplesmente (mais) um grande filme de Woody Allen, que nos presenteia com um drama que encontra em sua protagonista uma força parelha para sua trama emocional.