Crítica: “Três Anúncios para um Crime” fala sobre busca pela justiça e o perdão

Três Anúncios para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri) de Martin McDonagh

Inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada.

Esse é o ponto de partida de Três Anúncios para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017) de Martin McDonagh, que também assina o roteiro competente, com sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. Mas com a ausência do seu diretor entre os indicados, será que o drama policial ganha a estatueta principal da premiação, já que isso normalmente só acontece quando o filme tem o diretor, pelo menos, entre os indicados? De toda forma, teremos uma bela disputa na categoria de Roteiro Original, contra o favorito Corra! (2017).

E o que “Três Anúncios” tem demais? Uma história interessante, bem redonda (apesar de deixar o final em aberto) e nem um pouco cansativa, mesmo com as quase duas horas de filme. Atrás de justiça, Mildred Hayes (Frances McDormand) é a responsável por três outdoors de beira de estrada que denunciam a ineficiência da polícia local em investigar o estupro seguido do assassinato da filha. Os anúncios são instalados sete meses depois do crime e no local onde o mesmo ocorreu.

“Para mim, parece que a polícia está muito ocupada torturando pessoas negras do que resolvendo crimes reais. Então, os outdoors, você sabe, ficam de lembrete.” Diz a protagonista para uma repórter de TV ainda no começo do filme. Tudo isso se passa em uma interiorana e conservadora cidadezinha norte americana do título original. Em um dos outdoors, é citado o nome do delegado: “Como pode, Chefe Willoughby?” (Woody Harrelson). Este, um homem respeitado pela população, o que faz com que a cidade se volte contra a mãe injustiçada.

Sam Rockwell é favorito ao Oscar de Ator Coadjuvante, e Frances McDornand ao prêmio de Melhor Atriz

Então, parece que temos o enredo delineado, porém o grande trunfo dessa história é que não há heróis ou vilões, quase todos cometem erros e acertos ao longo da trama. A princípio, os personagens parecem ser bastante rasos, de atitudes previsíveis. Contudo, com o avançar da história, é impressionante como vão mostrando o lado complexo e, porque não, humano que possuem. E, dessa forma, se desenvolve a dança dos personagens, hora irritantes e desprezíveis, hora mocinhos adoráveis…

A protagonista vem de uma família difícil, em que era espancada pelo ex-marido e não tinha um bom relacionamento com a filha antes desta morrer. Mesmo assim, está longe de ser uma heroína. Frances McDormand atua brilhantemente como uma mulher marcada pela desgraça e com sede de justiça e, dessa forma, sai como a favorita ao Oscar de Melhor Atriz. E pode ser o segundo da carreira, pois a experiente atriz já venceu por Fargo (1996). Acredito que a grande mensagem do filme é a lição do perdão ou da redenção, do quanto alguém pode ser ruim para nós e, mesmo assim, a gente superar o ódio e procurar lutar pelo que é certo.

Com tudo isso, o espectador acaba envolvido no sentimento de querer ver a justiça acontecer, pelo menos foi assim comigo. Apesar do belo roteiro, algumas falhas não tem como deixar passar, como o desenrolar pouco factível da cena de explosão na delegacia. Por fim, belos ângulos e uma fotografia que dialoga a noite com o crime, o dia ensolarado com a esperança, além de uma trilha sonora que enaltece os momentos de melancolia. De fato, um dos melhores filmes do ano.