Crítica: história real, “The Post” relembra luta pela liberdade de imprensa

The Post: A Guerra Secreta (The Post, 2017) de Steven Spielberg

EUA. Final dos anos 60, início dos anos 70. Enquanto milhares de americanos morrem na Guerra do Vietnã, o governo Nixon insistia em sustentar que havia avanços militares em território estrangeiro, mesmo de posse de um estudo que comprovava o contrário. Esse era o cenário, e de onde parte a história baseada em fatos reais de The Post: A Guerra Secreta (The Post, 2017), novo drama de Steven Spielberg, e que está indicado ao Oscar de Melhor Filme.

De posse de sigilosos documentos do Pentágono, o jornal New York Times inicia uma série de matérias  denunciando esse, e outros governos americanos sobre a atuação do país em suas ações militares. É aí que o presidente decide processar o jornal com base na Lei de Espionagem, em tese para assegurar a segurança nacional, mas com o real intuito de que nada mais seja divulgado.

Exatamente nesse período de turbulência sócio-política, o jornal The Washington Post está prestes a lançar suas ações na Bolsa de Valores de forma a se capitalizar e, consequentemente, ganhar fôlego financeiro. É quando seu editor-chefe, Ben Bradlee (Tom Hanks), ávido por alguma grande notícia que possa fazer com que o jornal suba de patamar, tem acesso ao famigerado estudo do governo americano. Ele agora precisaconvencer Kat Graham (Meryl Streep) e os demais responsáveis pelo The Post sobre a importância da publicação de forma a defender a liberdade de imprensa.

Mesmo sabendo boa parte do histórico embate entre a mídia e o governo Nixon (1969-1974), principalmente sua desastrosa incursão na Guerra do Vietnã, o drama é didático, mas inspirador. A tensão é sempre motor para a questão de publicar ou não os documentos sigilosos que desmascara não apenas Nixon, mas muitos dos seus antecessores.

Além disso, há a importante questão de (re)afirmação do poder e capacidade da liderança feminina, personificada com honras por Meryl Streep. Sua personagem sempre está rodeada de homens indicando o que ela tem de fazer, independente do que ela pensa. Mas o controle é dela.

Sim, é impossível não grudar os olhos nas ações dos monstros da atuação, Tom Hanks (de personalidade mais forte com um certo equilíbrio de balança para a razão e o ego) e, como havia falado Streep (em sua 21ª indicação ao Oscar, mais que merecida). Entre os dois, há um relacionamento respeitoso, de pensamentos antagônicos, mas de movimentos em busca de um mesmo sucesso para o The Post.

Mas além do duo de protagonistas, seu elenco de apoio é brilhante, e há espaço para cada um deles brilharem, da equipe de jornalistas, aos núcleos familiares, passando para os acionistas do jornal e seu advogado (Bob Odenkirk, Sarah Paulson, Bruce Greenwood, Tracy Letts, Bradley Whitford, Alison Brie, Matthew Rhys, Jesse Plemons, David Cross, Carrie Coon, Jessie Mueller e Michael Stuhlbarg).

O curioso aqui é acompanhar o passo a passo do jornalismo investigativo, da apuração da notícia, as fontes jornalísticas, o que abordar dentre as várias variáveis da história, sua escrita, edição, revisão, escolha de capa, a feitura física das chapas do jornal, até a sua publicação.

Mesmo esquecido na categoria de diretor pelo Oscar, Steven Spielberg, além da excelente direção de ator, também faz mais um grande trabalho de câmera na maior parte do tempo. Seus enquadramentos é uma dança, por vezes à espreita, por vezes com senso de urgência, por vezes acompanhando seus personagens/ações e até objetos. Consegue provocar o medo de baixo para cima, e levita sobre a decisão mais importante na vida da dona do Washington Post.

E claro, como cereja do bolo, temos uma cena mais que especial, deixando o espectador com vontade de terminar esse belíssimo drama sobre a liberdade de imprensa, e emendar com outro grande filme, Todos os Homens do Presidente (1976), que desnuda o escândalo de Watergate.