Crítica: “Terapia de Risco” é um antidepressivo cinematográfico

Thriller é dirigido por Steven Soderbergh (Foto: divulgação)

“Terapia de Risco”: um antidepressivo cinematográfico

O diretor Steven Soderbergh jogou luz sobre o cinema independente americano ao ganhar a Palma de Ouro em Cannes com o drama Sexo Mentiras e Videotape (1989). Já se vão 24 anos e o realizador, que também faz a fotografia de seus filmes, é uma mente inquieta da sétima arte.

Mais uma mistura sua fez efeito. “Terapia de Risco” (Side Effects, 2013) é um drama de suspense em que Steven Soderbergh nos apresentam um ponto de partida, a aplicação de antidepressivos num tratamento médico, apenas como bloco de sustentação para uma trama intrigante.

A trama foca em Emily (Rooney Mara), que após a saída do marido, Martin (Channing Tatum) da cadeia (por motivos escusos) tentam se readaptar. E um dos pontos é a insistência em Martin repetir que retornará aos negócios (desconhecidos) e assim seu nível de vida retornará em breve. Mas Emily está visivelmente baqueada, tem ações impulsivas, não se satisfaz com o marido e tem comportamento disperso no trabalho.

Após um ato de perigo é atendida por um médico psiquiatra, Dr. Jonathan (Jude Law) que a obriga a passar por um tratamento psiquiátrico com o uso de antidepressivos. Não responde aos dois primeiros remédios, mas aí entra um novo medicamento, o Ablixa, para qual o médico é contratado como consultor numa pesquisa de resultados.

Mas os efeitos colaterais (principalmente de sonambulismo) não demoram a irromper à felicidade fabricada pelo Ablixa. Entra em cena a insuspeita médica anterior de Emily, a Dra. Victoria (Catherine Zeta-Jones) e as reviravoltas não tardam a começar.

É importante notar que cada informação omitida tem papel fundamental na eclosão dos fatos, com atos justificados e motivações dos personagens. E as pontas começam a se costurar numa trama, que quanto menos se revela, melhor.

O antidepressivo é uma substância considerada eficaz na remissão de sintomas característicos da síndrome da depressão e atuam diretamente no cérebro e regulam o estado do humor, o nível da vitalidade, energia, interesse, emoções e a variação entre alegria e tristeza, quando o humor está afetado negativamente num grau significativo.

“Terapia de Risco” funciona como um antidepressivo cinematográfico, de efeito positivo. Suas reviravoltas e tramas paralelas se justificam, uma a uma, e a obra desenvolve uma série de situações em cadeia e entrelaçadas.

Há um julgamento por assassinato, que envolvem responsabilidade médica (afinal quem matou foi o paciente ou o médico que receitou um medicamento novo?), golpe na bolsa de valores, envolvimento com pacientes (ou não), uma crítica a (poderosa) indústria de medicamentos, acordos financeiros, loucura psiquiátrica, vingança, carência e (porque não?), amor.

Roteiro

O roteiro do thriller é assinado por Scott Z. Burns, que colaborou com Soderbergh em Contágio (2011) e O Desinformante (2009), e aqui apresenta um trabalho sofisticado. Com personagens que carregam segredos que se revelam durante a trama, e outros que são apenas arrastados para dentro do furacão de acontecimentos. E tentam, de qualquer forma, sair dele. Como resultado final, a trama tem um desenvolvimento sempre crescente e que consegue surpreender com sua história dramática de suspense.

Há momentos bem interessantes, como a cena do reflexo deformado no espelho, o flashback no meio do filme, para depois voltar à cena do crime, a percepção lenta do tempo em que a protagonista se encontra e a diferença no estilo de filmagem quando se acrescentam personagens de apoio – mérito de Sorderbergh – os deixando sempre em imagens em segundo plano, distantes e até desfocadas dos protagonistas.

Elenco

Após uma construção brilhante de Lisbeth Salander em Milennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011), que lhe valeu a indicação ao Oscar de melhor atriz, Rooney Mara continua a brilhar aqui também. Uma figura que tem sentimentos e interesses desconhecidos ao demonstrar um alto nível de imprevisibilidade. Na alegria e na tristeza.

Do lado mais estabilizado da trama a precisão continua. Jude Law faz um Dr. Jonathan sempre dedicado com seus pacientes e, mesmo em meio a um acordo financeiro, procura sempre manter a ética e sensível aos acontecimentos. Não obstante também não esquece de suas responsabilidades com a família. Perfeito. Até o fim.

Ator arroz de festa, Channing Tatum cumpre seu papel, apesar das poucas informações sobre sua condição de ex-presidiário e marido apaixonado. E Catherine Zeta-Jones, que inicialmente é apenas um personagem de apoio, traz um tom de mistério, coerente para o desenvolvimento do thriller.

O diretor

Não existe um gênero específico que identifique seu estilo de cinema. Em seu currículo encontramos ficção científica (Solaris, 2002); noir (O Segredo de Berlim, 2006); biografia (Che – parte 1 & 2; 2008); suspense (Contágio, 2011) e misturas que deram certo, como drama musical (Magic Mike, 2012); romance policial (Irresistível Paixão, 1998).

E mais, qual o diretor que consegue encaixar dois dos cinco filmes indicados ao Oscar de melhor filme e direção num mesmo ano? Ele, que concorreu com Erin Brockovich e Traffic (ambos de 2000). Detalhe, os dois foram abraçados por crítica (Oscar de melhor filme e direção por Traffic) e público (blockbusters com mais de U$120 milhões de bilheteria, cada).

Além disso, passeia sem constrangimento pelo cinemão hollywoodiano (11 Homens e Um Segredo, 2001, e suas sequências, todos sucessos de bilheteria) e não tem problemas em voltar ao ninho indie (Full Frontal, 2002; Bubble, 2006), sempre bem acompanhado. Explico, seus filmes tem elencos recheados de estrelas e nomes que fazem questão de trabalhar com o diretor. Fato atestado mais uma vez no eficiente e instigante “Terapia de Risco”.

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