Crítica: sessão da tarde deliciosa, “Rogue One” respeita universo de ‘Star Wars’

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, 2016) de Gareth Edwards

“A Força está comigo e eu estou unido a ela”. Esse é o mantra que move Chirrut Îmwe (Donnie Yen), guardião do templo Jedi, em meio à guerra travada entre Rebeldes e o Império. Mas não só isso, a frase repetida frequentemente parece também traduzir o quanto da Força contém em Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story, 2016). É algo que se crê, mas não está exatamente presente.

A história é simples. Jyn Erso (Felicity Jones) é resgatada da prisão pela Aliança Rebelde, que deseja ter acesso a uma mensagem enviada por seu pai – Galen Erso (Mads Mikkelsen), criador a contragosto da Estrela da Morte – a Saw Gerrera (Forest Whitaker). O conteúdo é a falha implantada por Galen, que pode ajudar aos Rebeldes a destruir a arma. Com a promessa de liberdade ao término da missão, ela aceita trabalhar ao lado do capitão Cassian Andor (Diego Luna) e do robô K-2SO (Alan Tudyk por captura de movimentos e voz).

Sim, a sci-fi dirigida por Gareth Edwards (Godzilla, 2014) se passa exatamente antes dos fatos de Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança (Star Wars IV: A New Hope, 1977). Por isso mesmo existe um tom de respeito ao seu próprio universo, mas também a sensação de uma certa previsibilidade. Mas ainda assim, acompanhar a aventura intergaláctica é como assistir a uma sessão da tarde deliciosa.

No andamento da trama, a apresentação dos seus personagens salpica um tom complexo desnecessário. Suas motivações são mais simples do que está pintado, e está claro o tabuleiro e as jogadas naquela missão aparentemente suicida.

Temos a rebelde com causa, Jyn Erso, defendido com propriedade por Felicity Jones (indicada ao Oscar de melhor atriz por A Teoria de Tudo, 2014). Até sua possível ambivalência em relação a missão, tão levantada pelo droid K-2SO (por sinal, não apenas um alívio cômico, mas também dotado de muito carisma e presença em cena), é construída com sobriedade.

Já o Cassian Andor de Diego Luna não encantou. Menos pela atuação, e mais por quem é o personagem mesmo em tela, em resumo, de pouca substância. Marca ponto como o comandante da missão, e ponto final. E o talentoso piloto Bodhi Rook (Riz Ahmed) arranha até o rótulo de irritante. Mas passa na média.

Com menos tempo em cena, o extremista Saw Gerrera e o raptado Galen Erso, são muito bem apropriados pelos veteranos Forest Whitaker e Mads Mikkelsen, respectivamente.

Do lado negro da força, Ben Mendelsohn não impõe medo como o diretor Krennic (Ben Mendelsohn), que coordena a construção da arma mais poderosa do Império, a Estrela da Morte, e suas ações para acabar com a Aliança Rebelde. Feito a partir de uma reconstrução virtual sensacional, Peter Cushing (que já morreu há 22 anos), continua impecável em suas intervenções como o comandante Grand Moff Tarkin. Balanceando as ações de ambos, o nuance interessante é uma disputa (política/militarista) de poder dentro do Império.

Mas é impossível não vibrar com a presença de um dos maiores vilões da história do cinema: Darth Vader (voz indefectível de James Earl Jones). São duas sequências especialmente espetaculares, sendo uma entrada triunfal, e a outra na qual podemos testemunhá-lo em ação. E que ação.

A todo instante surge aquele sentimento de que estamos vivendo dentro do universo criado por George Lucas, e provoca aquele brilho nos olhos. Ok, mas é ainda maior e melhor quando nos deparamos com referências e/ou personagens da trilogia original.

Ainda sobre o andamento irregular, temos um miolo ok e uma excelente parte do terço final. É aí que a obra se sustenta como um filme de guerra encaixado na moldura de uma galáxia muito, muito distante. Sequências de batalhas insanas, confrontos em larga escala (pontinho para o diretor Gareth Edwards aqui) e uma inevitável torcida para a trupe de figuras tão diferentes quanto iguais.

A demora em demonstrar algum brilho e uma entrega emocional necessária é recompensada por inteira na sua ÚLTIMA cena. Aí sim, essa “História Star Wars” ganha o espectador ao transbordar com toda a emoção (e esperança) que a Força é capaz de provocar.

Rogue One: Uma História Star Wars é um filme que funciona isoladamente? Sim, de produção impecável, e com o rótulo Disney, é uma diversão certeira. Mas é ainda mais saboroso para quem já viu os outros sete filmes da saga. Que a força esteja com você, mesmo que não acredite tanto nela assim.

PS.: conferi ao filme na sala 4DX do Cinépolis RioMar, e posso garantir que a sensação de estar no meio da guerra é real. Com movimentos sensoriais, prepare-se para vento, chuva, tiros que passar zunindo seus ouvidos e uma cadeira com inúmeras ações.