“Projeto Flórida” choca o espectador com realismo escancarado

Projeto Flórida (The Florida Project, 2017) de Sean Baker

Projeto Flórida era a forma como Walt Disney se referia ao conjunto de parques temáticos de Orlando na época da construção. O filme de Sean Baker (roteirista, diretor e produtor da obra) se passa nos arredores do complexo e traz à tona a vida de crianças humildes que estão muito próximas e, ao mesmo tempo, muito distantes da possibilidade de desfrutarem das atrações do Magic Kingdom.

Sim, um filme que gira em torno da temática infância, onde aparecem crianças brincando diante de um cenário cheio de imagens coloridas. Apesar desse contexto, estamos longe de vê uma fantasia ao estilo das animações da Disney. Projeto Flórida (The Florida Project, 2017), não se trata de um filme bonitinho. Os contrastes são bastante acentuados e, diversas vezes, choca o espectador. A marca de Projeto Flórida é a realidade escancarada.

Uma simples pousada de beira de estrada, situada numa forte região hoteleira, é onde se passa a maior parte do filme. Ali, moram pessoas humildes que não têm condições de comprar a casa própria, mas que não são tão pobres ao ponto de terem que morar na rua. Realidade o tempo todo confrontada pela grandiosidade dos parques e hotéis da redondeza, além dos helicópteros levando e trazendo os ricaços.

A história se passa no verão, época das férias escolares dos pequenos. Ociosos, eles se aventuram com tudo que aparece, se metem em confusão, importunam os turistas e causam problemas em geral. Não são crianças fofinhas. Pelo contrário, são chatas, sem educação, cheias de más intenções e à procura de causar prejuízos. Obviamente, o comportamento delas é resultado do contexto de exclusão em que vivem.

No caso da protagonista, Moonee (Brooklynn Prince), a situação é mais delicada, uma vez que, para ela, falta também um referencial adulto de boas maneiras. Ela vive apenas com a mãe, Halley (Bria Vinaite), que, apesar de amar a filha (que só tem seis anos), leva a garotinha a presenciar circunstâncias em que imperam oportunismo, desrespeito, prostituição e falta de caráter.

Quanto à direção, um trabalho excelente. Câmeras baixas mostram a perspectiva das crianças, de onde tudo é grande, às vezes agoniante, e elas nem sempre entendem o que se passa. Bria Vinaite, descoberta por um caça talentos, fez a estreia dela com Projeto Flórida, e podemos dizer que foi com o pé direito. A atriz conseguiu dar vida a uma personagem inquieta e de comportamentos imprevisíveis.

O filme conquistou a indicação para melhor ator coadjuvante, para Willem Dafoe, em todas as mais conhecidas premiações do Cinema. O trabalho do ator americano foi muito bom, mas, nem de longe, é o ponto alto do filme. Essas indicações acabaram ressoando como consolação pelo fato de a película não ter concorrido em outras categorias, mesmo merecendo muito.

Dafoe, ator bastante experiente e com outras indicações no currículo, como A Sombra do Vampiro (2000) e Platoon (1986), mas nunca levou um Oscar. Ele faz o papel do gerente da pousada responsável por resolver os problemas causados pelas crianças. Diante de um filme estrelado por desconhecidos, deu a entender que apenas ele estaria credenciado a representar o filme perante a Academia, com sua nomeação de ator coadjuvante.

Projeto Flórida evidencia o outro lado da moeda daquele mundo dos sonhos que é a indústria da diversão de Orlando. O roteiro não tem furos, até porque é bem real, casos como os que aparecem no longa de fato acontecem. Mas, é incompleto. O argumento logo vai embora e o filme não diz a que veio, não tem uma mensagem clara. É uma denúncia? Está direcionado às autoridades? Ao público?

Sean Baker, ainda pouco experiente no Cinema, já tem na assinatura o forte realismo, também presente em trabalhos anteriores, como Tangerine (2015) e Uma Estranha Amizade (2013). Se o intuito era apenas chocar o espectador, Projeto Flórida é bem sucedido. E que apesar da fotografia belíssima, tão colorida quanto um arco-íris, o filme mergulha o público num mundo de contrastes intensos.