Crítica: “O Grande Gatsby” é uma viagem à Nova York dos anos 20

Baz Luhrmann é um diretor de excessos, principalmente visuais. Especializado em opulência, fartura de movimentos em cena e um tom kitsh (ou assumidamente brega) em sua narrativa, a careira do diretor australiano é marcado por mais acertos que erros.

O diretor e roteirista já conseguiu fazer do kitsch um elemento naturalmente engraçado (Vem Dançar Comigo, 1992), impressionantemente moderno (Romeu + Julieta, 1996) e até chique (Mouling Rouge, 2001), indicado ao Oscar de melhor filme. A (super)produção – Austrália (2008) foi seu único equívoco completo. Ao criar um novelão australiano, enfiou na mesma sacola o brega da comédia, western, romance, misticismo, drama e guerra. O resultado não poderia ter sido pior. De público e crítica.

Sua nova obra, O Grande Gatsby (The Great Gatsby, 2013), é a quarta adaptação do livro de F. Scott Fitzgerald. Seu romance é considerado um clássico da literatura americana. As adaptações anteriores tiveram seus artísticos resultados contestados pela crítica, que ficam entre o morno e a chatice (O Grande Gatsby, 1926 – mudo), (Até o Céu Tem Limites, 1949) e (O Grande Gatsby, 1974), o último uma obra pomposa, vencedora do Oscar de melhor figurino e trilha sonora, mas oca. Sua nova visão para um romance clássico é em 3D. Cheio de cores, ritmo, sons e muita ousadia.

Vamos ao filme. Nick Carraway (Tobey Maguire) carece de cuidados psicológicos. Além do alcoolismo, há uma história que lhe aflige o juízo e que não sai da sua cabeça. Internado num sanatório, seu médico o incentiva a escrever e a narrar a tal história. Toda trabalhada numa narrativa escorada no flashback, a história é recontada aos olhos de Nick.

Corta para o início dos anos 20, quando Carraway chega à Nova York. Nos arredores da cidade aluga um chalé e se prepara para trabalhar como corretor da bolsa de valores. Seus dias variam entre visitar a suntuosa propriedade da prima Daisy (Carey Mulligan), casada com o ricaço Tom (Joel Edgerton), e observar as festas intermináveis do seu misterioso vizinho, conhecido como ‘O Grande Gatsby’ (Leonardo DiCaprio)

Ao receber o convite para um grande evento na mansão de Gatsby, Nick não imagina que, na verdade, essa amizade entre vizinhos tem uma finalidade: Gatsby, o novo rico, sonha em retomar seu antigo relacionamento amoroso com sua prima, Daisy. Há ainda a necessidade de uma outra volta no tempo, para relembrar motivações, o amor e a construção de uma lenda.

Produção

Uma obra de encher os olhos, de opulência visual arrasadora, O Grande Gatsby também consegue investir em seu principal foco, o romance, quando embrulha o casal Daisy e Gatsby entre rosas e tardes de animação. Até lá muito mistério acerca do protagonista, algumas viagens musicais (e dá-lhe jazz), casos de traição e muita ostentação.

3D

O efeito 3D tenta se impregnar na orgia visual, em cada virada da trama, em cada movimento da câmera vibrante de Baz Luhrmann. Sim, tenta, pois o efeito só funciona mesmo durante as festas meio carnavalescas, meio espetaculares de Gatsby. Claro, absorvidas pelo excesso, caricaturas e grandiosidade. Esse é o seu mundo. O efeito 3D faz com que o público participe das festas, com uma sensação de profundidade. Já na maior parte do filme é indiferente.

Elenco

O personagem Gatsby é um mistério só. Até a sua apresentação física, tudo é dito e imaginado pelo público. Quando temos sua personificação em Leonardo DiCaprio, temos a certeza que não poderia ter sido uma escolha melhor. Com o total domínio de um personagem absorvido pelo desespero de se fazer notar pela sociedade, apenas para saciar seu desejo maior: o de reascender a paixão de cinco anos atrás.

Carey Mulligan faz da sua Daisy a ternura em forma de gente, mas com um sofrimento incrustado na alma. Em meio as convenções sociais dos anos 20, percebemos todo o peso do seu sentimento ao versar sobre os perigos e medos numa possível decisão sobre o futuro. Claro, aliado ao seu sofrimento interno do casamento falido e a possibilidade de reviver um romance do passado.

Ao seu lado está Joel Edgerton, um dos herdeiro de uma família milionária, ex-jogador de polo e conquistador barato que adora a emoção de fazer uma festinha com as mulheres da vida. Um esnobe que sabe jogar com suas posses e mesmo errado, não foge da verdade. O importante é resolver.

Tobey Maguire é o deslumbrado-mor da história. Um louco (?) que vive do passado recente e ao revivê-lo nos entrega apenas um ser abobalhado. Elizabeth Debicki insere um teor de ambiguidade em sua esnobe Jordan Baker, a tal ponto de nos colocar em dúvida se ela está seduzindo ou se é uma vilã que não compartilha segredos. Isla Fisher é uma perdida e infeliz no seu mundo de migalhas, que dá vida a uma Myrtle que beira o desespero emocional em mudar de vida.

Resultado

Confesso que nem notei sua extensa duração. São cerca de duas horas e 22 minutos de imagens que impressionam, um drama social que convence e um romance que flerta com o amor verdadeiro. Uma produção envolvente, com atuação precisa de Leonardo DiCaprio, a beleza doce de Carey Mulligan e a mau caratismo de Joel Edgerton, numa bela tragédia filmada com ardor por Baz Luhrman. Ponha seu traje de gala e sinta-se convidado para a festa, pois o espetáculo vai começar.