Crítica: “O Cavaleiro Solitário” é longo, lento e chato

Filme é uma adaptação da série de TV homônima (Foto: Disney)

“O Cavaleiro Solitário” é longo, lento e chato

Durante a expansão ferroviária de 1869, um jovem oficial de justiça, John Reid (Armie Hammer) parte numa missão com um grupo de Texas Rangers, liderados por seu irmão, o delegado Dan Reid (James Badge Dale) e são encurralados pelo bando de Butch Cavendish (William Fichtner). Os corpos são encontrados pelo índio Tonto (Johnny Depp), que ao receber um sinal do seu alazão enfeitiçado, traz John de volta e o renomeia O Cavaleiro Solitário, um justiceiro mascarado.

Narrado em flashback por Tonto (Johnny Depp), que ganha a importância de protagonista na história, O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger, 2013) tem excesso de piadas e explosões. Em meio a um subtexto de crítica étnica-social (o massacre dos índios a favor do progresso americana), política (os acordos dos poderosos que visam o lucro próprio e sua perpetuação no comando) e de justiça com as próprias mãos (o tal cavaleiro mascarado), todos sem aprofundamento algum.

O faroeste cômico de Gore Verbinski, que venceu o Oscar de animação com um formidável faroeste – Rango (2011), atira para todos os lados e não acerta quase nada. Tenta homenagear westerns clássicos, insiste em dar ao índio Tonto frases engraçadinhas (nada engraçadas, diga-se) e situações constrangedoras – o cocô de cavalo, alimentar o pássaro, por exemplo.

Há ainda cenas exageradas, especialmente a primeira e o último descarrilamento dos trens, um romance desleixado com a própria história e uma vingança dupla contra um ganancioso empresário da companhia de trens (Tom Wilkinson, deprimente) e um assassino que devora corações (Fichtner, nojento e apavorante).

Roteiro

O humor é boboca, a crítica social inexiste, as cenas de ação não funcionam inteiramente dentro do contexto, o protagonista é tratado como coadjuvante e o Tonto, praticamente, lidera o filme. São duas horas e meia num filme que poderia ter uma hora e pouco. São dois personagens principais (Armie Hammer e Johnny Depp) e duas origens recontadas.

O roteiro esquizofrênico aposta numa narrativa trabalhada no flashback. Tendo como narrador um Tonto já velho, dentro de um Museu do Velho Oeste, é confusa. Há, inclusive, um flashback dentro do flashblack (haja paciência) sobre Tonto, e as pausas cômicas nas cenas recontadas são completamente sem graça. As piadas então, nos momentos mais sérios, são desnecessárias.

Equipe Piratas do Caribe

Tudo derivativo demais da cinessérie Piratas do Caribe (2003; 2006; 2007; 2011), que vinha se repetindo nos dois últimos longas. Mas as coincidências não são à toa, pois quase toda a equipe do novo O Cavaleiro Solitário é remanescente da saga de Jack Sparrow. Além do estúdio (Disney) que os abriga.

Produtor

O produtor é o mesmo Jerry Bruckheimer, que tem uma lista de sucessos de bilheteria como Um Tira da Pesada I e II (1984; 1987), Top Gun (1986), Maré Vermelha (1995), A Rocha (1996), Con Air (1997), Armageddon (1998), Pearl Harbor (2001) e A Lenda do Tesouro Perdido (2004).

Roteiristas e diretor

A dupla de roteiristas Terry Rossio e Ted Elliot, indicados ao Oscar pelo roteiro de Shrek (2001), foram os responsáveis pelo roteiro final dos quatro capítulos de Piratas do Caribe. O diretor Gore Verbinski dirigiu a trilogia original de Jack Sparrow (2003; 2006; 2007), que escala seu astro maior (Johnny Depp, também produtor) na pele de Tonto.

Hans Zimmer

Hans Zimmer, que compôs a trilha sonora original e os temas de Piratas do Caribe, também está na empreitada do velho oeste. Entre cenas modorrentas e piadinhas fora de hora, a ação (principalmente a sequência final) é embalada pelo (sensacional) tema original da série (“Tema de Guilherme Tell”, escrito por italiano Gioachino Rossini) refeita em tom de fanfarra. Mas até chegar ao clássico “Ayo, Silver!”, o filme já encheu a paciência do espectador. E muito.

Elenco

Apesar de contabilizar mais um personagem esquisito para sua coleção, Johnny Depp sai intacto do desastre. Ele constrói de forma precisa um bizarro índio, que nunca se sabe se possui ou não poderes místicos (vindo, quem sabe, do pássaro ‘morto’ em sua cabeça). Uma de suas melhores cenas é a que é perguntado “qual seu crime?” e responde “ser índio”. Na sequência, repare no seu semblante pesado e olhos tristes ao ser preso. Tanto o filme não está à sua altura, como ele não é capaz de salvá-lo.

Armie Hammer tem presença física, algum timming para a comédia, mas não é um herói. Talvez o próprio roteiro não o deixe surgir assim. O romance com sua cunhada (Ruth Wilson, que é só beiço e nada mais) não engata e sua inabilidade com as armas servem apenas para firmar sua insegurança e de alívio cômico mal empregados.

Helena Boham Carter (deslocada) é uma bizarra dona de cabaré com uma perna de madeira, Barry Pepper um oficial corrupto que cumpre tabela, e os vilões, Tom Wilkinson – um triste piloto automático, e William Fichtner entre o grotesco e o exagerado. Uma sucessão de desperdícios.

Origem e outras produções

Criado nos anos 30 como personagem título de uma novela de rádio, O Cavaleiro Solitário – que comicamente está sempre acompanhado de seu parceiro, o índio Tonto, se tornou popular nos EUA até virar série de TV por nove temporadas (1949 a 1957). Filmes também foram produzidos (em 1952; 1955; 1956; 1958) e até quadrinhos. A informação bizarra, é que no Brasil da década de 50, o herói foi chamado de Zorro. Outras tentativa também foram feitas, todas sem sucesso. Em 1981, A Lenda do Cavaleiro Solitário, que ninguém viu; E 2003, um filme para TV que contava a época de adolescente do herói.

Resultado

Como prova algumas de suas cenas de ação, talvez com uma hora e meia a menos, o faroeste cômico funcionaria. Talvez. Poderia ser ágil, divertido. Mas não é. Não por completo. E definitivamente derivar um produto de sucesso anterior numa trama que une um herói por acidente a uma figura estranha que faz gracinhas numa história com muitas explosões e nada mais. Não deu. Sem emoção, sem charme a obra estanca nas próprias ambições e é longa, lenta e por muitas vezes, aborrecida.

Produtores e estúdio creem numa ‘franquia’ sem antes mesmo que o primeiro filme exista. O resultado da superprodução é igual o que o seu diretor acredita ser uma cena muito importante, que não poderia deixar de fora da edição: Um desacordado ‘Cavaleiro Solitário’ é puxado pelo alazão de Tonto, que passa, inclusive, por cima do cocô de cavalo. O Cavaleiro Solitário, o filme, isso sim, é um cocô de cavalo.

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