Crítica: novo “Homem-Aranha” é meia ‘comédia high-school’, meio ‘filme de herói’

Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017) de John Watts

Uma história de origem. Um herói que descobre seus superpoderes. Uma missão a cumprir. Explosões, muitas explosões. Confrontos confusos (e dá-lhe CGI), e extremamente barulhentos. Um vilão para dominar o mundo (ou acabar com ele). Sem esquecer das piadinhas a cada sequência.

A fórmula de filmes de super-heróis da Marvel não é segredo para ninguém, e fora do universo cinematográfico da marca já rendeu até algumas variações de sucesso, como Deadpool (2016).

Mas não parece que tudo é mais do mesmo? Uma simples diversão sim, na maioria das vezes, mas que só não esquecemos logo porque existe uma intensa – e muito bem urdida – conexão infinita entre eles. É um puxando o outro.

Mas eis que surge esse novo Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017) de John Watts, e consegue dar um novo ânimo ao filão. Meia ‘comédia high-school’ e meio ‘filme de herói’, é um produto bem divertido, tem um protagonista (Tom Holland) em perfeita simbiose com seu personagem-e-história, um vilão com motivações aceitáveis e um plot twist maravilhoso.

Peter Parker (Tom Holland) voltar para casa e para a sua vida, mas, com a experiência, não consegue mais ser apenas um adolescente normal. Sempre à espera de um chamado de Tony Stark (Robert Downey Jr.) para uma nova missão dos Vingadores, vive diariamente combatendo pequenos crimes nas redondezas encarnando o “o amigo da vizinhança”.

Enquanto tenta superar a zoação típica da era high-school, conquistar uma paixão na escola (Liz/Laura Harrier), ser um aluno de destaque e um sobrinho exemplar, ele é, no fundo o Homem-Aranha, que precisa mostrar para si e aos outros que pode ajudar sempre mais. E ao flagrar o Abutre (Michael Keaton), que rouba restos de lixos alienígenas para fabricar e vender armas na cidade. Ele não quer conquistar ou destruir o mundo, mas a sua motivação é apenas o dinheiro, para prover uma vida melhor à sua família.

A trama já acerta em não mostrar nada da origem do herói – ele já foi picado pela aranha, Tio Ben é um peso do passado – e entrou em ação pela primeira vez ao roubar ao escudo do Capitão América em “Guerra Civil” (2016). Os fatos acontecem exatamente após sua “ação”, e o foco do filme é Peter Parker, e em como ele se descobre a verdadeira essência de ser o Homem-Aranha. E quem não apenas dá a deixa para isso, mas que mostra na prática como as coisas funcionam é Tony Stark, o mesmo que acreditou nele, preparou seu traje ultramodernoso, e o vê como um futuro ‘Avenger’.

A saída não é um mistério do outro mundo, é apenas focar no adolescente Peter Parker e suas autodescobertas. Ele é o ‘Aranha do Youtube’, mas quer algo mais. Acompanhamos seu primeiro salvamento – ainda sem segurança, a escalada ao ponto mais alto que já foi, o primeiro interrogatório (engraçadíssima sequência envolvendo Donald Glover, e um possível futuro em continuações), e até mesmo quando ele não consegue ser um super-herói, em como ele aprende com seus erros.

Distante da pirotecnia usual do heróis, a trama não foca em sequências grandiosas, e mesmo quando temos algo parecido (a situação no ferry boat, o confronto com Shocker e o Abutre), não temos o ponto alto da trama. Ele é um personagem atrapalhado, não à toa que sai por aí dizendo “com licença”, “desculpa”, é realmente o amigo da vizinhança. E tem alma pura. O melhor é que Tom Holland externa exatamente tudo isso.

E onde entre a “comédia high school”? John Watts, o diretor, sabe das coisas, e as referências oitentistas são precisas. Temos o Clube dos Cinco (detenção, e a aluna Michelle/Zendaya cabe perfeitamente como a esquisita na turma), o Ferris Bueller de Curtindo a Vida Adoidado (temos uma perseguição entre jardins e as piadinhas também), Te Pego Lá Fora (o mesmo horário do fim da aula) e Negócio Arriscado (a deslizada antes do baile). Ah, e existe uma festa na casa de alguém, a viagem da escola, o crush acima de suas possibilidades, e o baile de formatura, né?

Enquanto isso toca Hey Ho! Let´s Go! do Ramones. Tem como não amar?

E olha que o filme tem oito créditos no roteiro, sendo dois deles os autores da história (John Francis Daley e Jonathan Goldstein), e depois passou por mais outros dois tratamentos (de Chris McKenna & Erik Sommers, e depois de Christopher Ford & Jon Watts – também diretor do filme), e por fim, uma polida final da dupla inicial, Jonathan Goldstein & John Francis Daley, além dos criadores do personagem (Steve Ditko e Stan Lee).

Sim, sim, vamos falar dos seus problemas também, nada de perfeição por aqui. A costura aparece mais na relação entre as ações do vilões e a intervenção do Homem Aranha. Parecem dois filmes diferentes, e desintegração literal de um vilão “Socker” para o outro, é horrível.

As correções de roteiro para dar fluidez na história funcionou, ok, mas há engasgos como a questão de, como é que, durante oito anos a trupe do Abutre trabalhou recolhendo “restos de batalhas” dos Vingadores ao redor do mundo, e como mesmo assumem, “nem o FBI nunca suspeitou de nada”? Quer dizer que eles transformam esses itens em armas para vender entre criminosos, causam o maior estrago, um avião dos Vingadores autônomo é sequestrado e ninguém aparece para saber o que está acontecendo?

A trilha não apresenta nenhum tema marcante, e o “cabeça de teia” teve de se contentar em ter o tema dos Vingadores e outras similaridades em tela. Como o vilão ‘humano’, Michael Keaton não desaponta, e tem duas ótimas cenas com Tom Holland, uma casual e que se desenrola para o carro, bem tensa, e outra um pequeno confronto em um galpão isolado. E que grande momento o reflexo do herói e a sua ausência de uniforme.

Além da presença bem leve e descontraída de Robert Downey Jr. , o Homem de Ferro em carne, ferro e piadinhas, há também Jon Favreau como o mais que motorista, Happy, uma ponta de Gwyneth Paltrow, vários vídeos (hilários) do Capitão América (Chris Evans), quase uma autozoação, e o parceiro de Peter Parker, o sensacional Ned, ou “o homem na cadeira (Jacoc Batalon). Para finalizar, uma maravilhosa Tia May de Marisa Tomei. Encarnada com doçura, beleza e uma sensualidade natural, tímida, inocente até, é também toda trabalhada em figurinos dos anos 70, apesar de estarmos chegando em 2020.

Curti a escolha pela teia não-orgânica, mas me incomodou um pouco o uso para além do uniforme moderno, e suas zilhões de funções. Tecnologia demais, incluindo drones-aranhas, e uma voz condutora (Jennifer Connelly) dentro do sistema da vestimenta. Não precisava tanto, mas passável em aventura de alto nível, e que dá muita vontade de ver sua continuação imediatamente.

PS.: Sim, há a usual ponta de Stan Lee, e são duas as cenas pós créditos. Na verdade a primeira é entre créditos, ok, e a segunda é ao final de tudo mesmo, e é hilariante.