Crítica: novo “Anna Karenina” é um espetáculo híbrido

Joe Wright é ótimo contador de histórias. Diretor que traduz a aura grandiosa que um romance de época necessita e costuma trabalhar com sua atriz fetiche, Keira Knightley. Orgulho & Preconceito (2005) é uma saborosa versão do clássico livro de Jane Austen, sem romper a barreira do romântico doce ao equilibrar a dose de romantismo e drama familiar (leve).

Quem esperava um novo romance, se surpreendeu com a porrada que é Desejo e Reparação (2007), mesmo partindo de um casal apaixonado a sua épica reconstrução dos fatos é trágica. E bela. As duas vezes ele tinha Keira Knightley. No segundo ele tinha um dramaturgo para adaptar o livro (Christoper Hampton).

Partiu para um drama (baseado numa história real) hollyodiano, O Solista (2009), sem muito êxito. Experimentou uma história diferente e originalmente corajosa com Hanna (2011). Colheu elogios, mas retorna sua lente para um campo que domina com a adaptação da obra de Leo Tolstói, Anna Karenna (Idem, 2012).

Mas, o que poderia ser extremamente convencional, (surpresa!) Joe Wright nos apresenta com experimentações. E adaptado por um dramaturgo, Tom Stoppard. O resultado é um espetáculo híbrido, que é cinema, sim, mas insere teatro, coregrafia e música ao vivo (de Trilha Sonora indicada ao Oscar). Não, não é um musical, e sim um romance clássico, de essência dramática e, claro, trágica, como a obra original dita.

Contexto histórico

Para quem não sabe, não lembra ou não leu, o filme é sobre uma aristocrata do século XIX que destrói seu sólido casamento ao se apaixonar por um soldado russo. O contexto histórico da Rússia czarista que nos mostra uma aristocracia machista, reflete posses e mostra uma sociedade de aparências.

Sua narrativa percorre temas como (in)fidelidade, estrutura familiar, desejo carnal e a coragem. Sua protagonista descobre a paixão e o clamor do sexo, como uma forma de fugir do seu destino, imposto por suas escolhas moldadas pela sociedade em que vive. Mas haverá saída?

Desde a abertura já somos apresentamos a uma linguagem teatral com passagens de tempo e espaço entre cenários vivos (que concorreu ao Oscar de Design de Produção) e coreografias. Auxiliado por uma fotografia (indicada ao Oscar) que emociona ao iluminar sentimentos, algumas cenas se transformam em verdadeiras pinturas e os bailes trazem o esplendor que as linhas de Tolstói merecem.

Seus personagens são desenhados com suas motivações, seja em buscar do amor ou de suas verdades pessoais, transformadas em justificativas para seus atos. A consciência comanda, independente das suas vontades, quase sempre ditadas pela época.

Elenco

Keira Knightley devia ter nascido em outra época. Figura que imediatamente remete aos filmes de época, sua interpretação age em comunhão com sua personagem. Olhos que flertam, coração que pulsa e corpo entregue. Indigna-se com sua condição e procura a felicidade. Ao seu lado não pode-se dizer o mesmo do jovem Aaron Taylor-Johnson, que não vejo paixão alguma e a emoção passou longe.

Jude Law é a frieza em pessoa. Sua concepção de marido que decide querer resolver a situação da forma mais imediata possível – para que a sociedade não comente mais, que caia no esquecimento – fato costumeiro pelo lado masculino da época, é a demonstração prática que reflete sua sociedade. A comparação é desigual.

Resultado

O novo Anna Karenina (2012), tem o adorno luxuoso de belos figurinos (indicado ao Oscar), cenários que fazem parte da trama, tramas paralelas interessantes – como a busca de um casamento baseado no amor (entre Levin – Domhnall Gleeson e Kitty – Alicia Vikander) e, claro, um tom trágico necessário. E bonito. Um filme que, apesar das (des)construções narrativas que envolvem teatro e música, honra a sétima arte. O espetáculo híbrido é mais uma bela obra de Joe Wright.

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