Crítica: longe da fantasia dos super-heróis, “Logan” é realista, brutal e arrepiante

Logan (Logan, 2017) de James Mangold

Por Davi Nogueira*

Por 17 anos o ator australiano Hugh Jackman (indicado ao Oscar de melhor ator por Os Miseráveis, 2012) encarnou, nos cinemas, o mutante Wolverine, um dos mais populares heróis do universo de quadrinhos da Marvel. Sua entrega física e emocional ao personagem tornou sua interpretação icônica, sendo o alicerce de quase todas às adaptações cinematográficas dos X-Men. Foram seis participações em filmes da franquia e dois filmes solos.

A hora da despedida chega agora com Logan (Logan, 2017) de James Mangold, sua anunciada última aparição como Wolverine. É necessário, porém, que o público deixe de lado a fantasia dos filmes anteriores. Aqui, a mudança de tom e de propósito é drástica, abraçando uma visão mais realista, inspirada em road movies e em westerns (principalmente Os Brutos Também Amam). Logan não é o típico filme de super heróis. Pelo contrário, é um drama pungente sobre um homem que perdeu tudo, e desistiu da esperança. O resultado é um filme brutal. Arrepiante até.

Sua narrativa traça paralelos com a vida real, apontando para a chegada da velhice, e a eminência da morte. Wolverine, que nunca aceitou de fato o papel de herói, está exausto fisicamente e mentalmente. Suas feridas, que não cicatrizam com antes, se mostram profundas na pele e mais ainda na alma. Seus lanços com o passado são apenas com seu mentor Charles Xavier (Patrick Stewart), sua única família. A relação se torna de pai e filho, mais profunda e emocional do que jamais vista. Embora as cenas de ação sejam brutais e gráficas (finalmente vemos a violência do personagem no seu auge com um banho de sangue), o que interessa no filme são as relações pessoais e o lado humano dos personagens.

Deixamos, então de apenas torcer ou admirar Wolverine para sentirmos empatia por ele. O monomito, como chamamos a jornada do herói, confirma aqui sua ubiquidade por meio de uma mescla entre o conceito junguiano de arquétipos, forças inconscientes da concepção freudiana e a estruturação de ritos de passagem. Logan é uma viagem emocional trágica e visceral rumo ao perdão e à redenção. O desfecho de uma era acabada de uma forma ao mesmo tempo arrepiante, dolorosa e trágica. Enquanto um X é fincado para sempre em nossas memórias.

*Davi Nogueira é publicitário, redator e cinéfilo