Crítica: história real de “Feito na América” é recontada em narrativa inconvencional

Feito na América (American Made, 2017) de Doug Liman

Tráfico de armas e drogas. Assistência financeira e técnico-militar aos Contras na Nicarágua. Lavagem de dinheiro. Construção do Cartel de Medellín e a ascensão de Pablo Escobar. Ditadura de Noriega no Panamá. Abastecimento de armas aos Sandinistas. Operações secretas da CIA na América Central e do Sul. Irã-Contras…

A lista de temas um tanto quanto espinhosos em Feito na América (American Made, 2017) de Doug Liman, assusta. Mas todos são bem reais. Contudo, a escolha por recontar essa história pelo seu próprio tom de absurdo, e incuti-lo de um clima leve, torna a viagem divertidamente possível.

O centro da trama é Barry Seal (Tom Cruise), piloto comercial americano, que é recrutado em 1978 para trabalhar primeiro para a CIA – praticando a espionagem e transportando armas – e depois tanto para os maiores cartéis colombianos, traficando mercadorias entre os EUA e a América Latina, governos militares e até para si mesmo, até meados dos anos 90.

De montagem ágil, insere depoimentos do protagonista em VHS bem datados, sequências animadas demarcando no mapa por onde as missões já passaram, além dos filmes antigos do então Presidente, Ronald Reagan. As cores são tão erráticas quanto as ações do seu protagonista, e aparentemente essa estrutura visual é a ideal para a sua história.

Para quem deu vida ao novo filme de espião com A Identidade Bourne (2002), brincou com o casal de assassinos em Sr. & Sra. Smith (2005), e enveredou pela espionagem política em Jogo de Poder (2010)Doug Liman está bem à vontade em Feito na América. O resultado é que consegue tragar o tom denso para o bizarro ao fazer o uso de closes e câmera na mão que inflamam urgência, além dos chamados planos holandeses, que apontam desorientação com seu foco entre a lateral e a queda.

Apesar de conter uma série de personagens secundários como Domhnall Glesson (o agente Schafer), Sarah Wright (a esposa), Caleb Landry Jones (JB, o cunhado) e Pablo Escobar como um personagem apagado (na pele de Mauricio Mejía), toda a atenção vai para Tom Cruise. Em sua segunda colaboração com o diretor, que antes haviam feito o inventivo sci-fi No Limite do Amanhã (2014), Cruise parece estar apenas se divertindo com tamanhas loucuras que se acumulam.

Seu desempenho é feito na base do sorriso malicioso, cada vez maior em uma sucessão de situações de façanhas ultrajantes. E quando você tem tanto dinheiro que não tem onde esconder dentro de casa? E quando o banco doa o seu cofre principal, apenas para a sua conta? Como é possível numa mesma operação CIA, FBI, Polícia Estadual, DEA e Procuradoria do Estado? E o que fazer decidir pousar um avião no meio de uma cidade carregado de drogas?

Feito na América parece ser uma grande brincadeira, narrado de forma não convencional, mas é extremamente convincente ao expor a podridão por dentro do sistema de segurança e controle americano. E que parece nunca terá fim.