Crítica: ‘Guerra Mundial Z’ é uma viagem rumo à aflição

O coração está em dia? Sim ou não, é bom se preparar para grandes emoções. Baseado no livro homônimo de Max Brooks – publicado em 2006 – Guerra Mundial Z (Wold War Z, 2013) de Marc Foster é uma viagem de aflição e loucura. Brad Pitt estrela (e produz) como um devotado pai de família e ex-agente da ONU que é recrutado novamente às pressas para tentar conter a devastação da população mundial. O inimigo são os zumbis.

Três atos

Ato 1. A apresentação da trama não poderia ser melhor. Através do noticiário acompanhamos o avanço do vírus não identificado até a sua transformação em epidemia. Enquanto prepara o café da manhã para esposa (Mireille Enos, ótima) e suas duas filhas, sabemos que o protagonista, Gerry Lane (Brad Pitt), já passou por missões de grande perigo pelo mundo e que está aposentado para se dedicar à família. Enquanto isso, os zumbis atacam pelo mundo, mas aparentemente aquela ameaça parece que não pode atingi-los. Ledo engano.

Ato 2. Corta para o engarrafamento. Parece que há algum problema… E há. A qualquer momento o medo tingirá a tela. E atingirá o espectador. Entre os cortes e movimentos de câmera, somos tragados para o meio do desespero de Gerry Lane e família. Nas ruas da Filadélfia, ele se vê frente a frente à ameaça – até então – desconhecida. No olho do extermínio, o engenhoso agente conta o tempo da transformação (11 segundos) e usa a informação ao seu favor.

Sua missão (suicida!?) começa à bordo de uma frota da ONU no mar, onde sua família é instalada. Ele terá de ir (de novo) à campo. Ou vai ou voltam ao inferno. Atrás do paciente zero, ou de pelo menos respostas que possam ajudar, a epopeia de Gerry Lane inicia à caminho de uma base na Coréia do Sul. Depois Jerusalém e, finalmente, País de Gales. Entre uma parada e outra, os momentos de tensão são infinitos.

O ato 3 se concentra numa indefinição, um jogo de xadrez entre uma equipe de virólogos, Brad Pitt e os zumbis, que controlam parte da base onde estão instalados. Até o epílogo morno, de narração em off expositiva e que clama por uma continuação. Mas nada que tire o brilho de um baita thriller capaz de provocar tanta ansiedade, que não dá tempo nem para pensar direito.

Brad Pitt

O produtor Brad Pitt acertou em escalar o ator Brad Pitt. O astro, que construiu sua carreira saindo da posição de galã para se consolidar como um ator respeitável, está perfeito como um obstinado agente de campo que se inspira em sua família para chegar até a salvação de todos. Não haveria ninguém mais adequado ao papel, pois ele mesmo é casado, pai de família e identificado com os atos humanitários. 

Tensão total

As cenas tensas se acumulam durante toda a fita. Entre uma fuga e outra, há a situação no supermercado, o esconderijo com uma família latina, o encontro com o helicóptero de resgate e suas sucessivas missões. E diga-se, todas são orquestradas de maneira sensacional. Parece que a cada momento a situação piora, enquanto a saída torna-se cada vez mais difícil. Ou seria impossível?

Dentre as sequencias mais espetaculares está o enfrentamento e fuga dentro das paredes (gigantescas) de Jerusalém, um confronto num avião em pleno ar e a busca pelos vírus dentro de uma base (no País de Gales) tomada por mortos-vivos. No meio de tanto medo há espaço para uma belíssima cena, o qual Pitt, temendo o pior, declara todo seu amor à família.

Produção

Um belo trabalho de edição, que nunca deixa o filme parar, auxiliado pela eficiente trilha sonora de Marco Beltrami. Enquanto o diretor Marc Foster, hábil em dramas pessoais (Em Busca da Terra do Nunca, 2004; O Caçador de Pipas, 2007) e filmes artísticos (A Última Ceia, 2001; Mais estranho que a Ficção, 2006), mas não tão certeiro no filme de ação (007 – Quantum of Solace, 2008), se superou.

Ao comandar uma superprodução problemática, que passou por refilmagens, rearranjos de roteiro (com quatro profissionais creditados, Matthew Michael Carnahan, Drew Goddard, Damon Lindelof, J. Michael Straczynski) e modificações no subtexto, Guerra Mundial Z é uma vitória. E de perder o juízo, positivamente. E o 3D é dispensável.

Roteiro

O primeiro tratamento, de Matthew Michael Carnahan (O Reino; Leões e Cordeiros, ambos de 2007; Intrigas do Estado, 2009) e J. Michael Straczynski (A Troca, 2008; Thor, 2011) era a adaptação do livro, com suas decisões políticas e sentido de apocalipse social.

Quando o estúdio achou que o filme não viveria tanto, entrou em cena primeiro Damon Lindelof (Lost – 2006~2010; Star Trek, 2009; Prometheus, 2011) e depois Drew Goddard (Cloverfield – Monstro, 2008; O Segredo da Cabana, 2012), para inserir o clímax e o apreço do protagonista à família, estendido para funcionar como mola dramática propulsora.

Resultado

Há um certo drama, bem colocado, numa situação que requer até a dureza da seleção “natural”, o qual as pessoas se enquadram em listas de consideradas essenciais ou não. Mas o livro, que aborda um tempo maior de exposição e luta contra os zumbis (10 anos), investe em subtramas políticas, sociais e econômicas – distante da trama que nos é apresentada.

Ao focar sua história na jornada de Brad Pitt rumo ao impossível, o texto é diluído em favor da emoção. E que funciona muito bem. A cada cena o desespero aumenta e as saídas parecem inexistir. O resultado de Guerra Mundial Z é uma diversão que ultrapassa o mero passatempo e evoca nosso instinto de sobrevivência com um sentimento invisível do qual não se pode fugir: o medo.