Crítica: decifre “Em Transe” e divirta-se

Do mesmo diretor de “Quem Quer Ser um Milionário?” (Foto: Fox)

Cortes rápidos. Cores fortes. Ritmo frenético. Tempo recortado. A técnica do diretor Danny Boyle está impressa em todos os frames de seus filmes. Um autor moderno. E sua nova obra, “Em Transe” (Trance, 2013), é um thriller confirma sua arte de untar suas características de forma que instigue e surpreenda o espectador.

Está tudo posto na tela. O esquema armado para surrupiar Três Bruxas no Ar (de Goya), um quadro tão enigmático quanto as reviravoltas das reviravoltas que a trama do filme dará em si.

Mas perceba, não é um filme sobre um roubo de um quadro de Goya. É sobre roubo de memória. Sobre como o inconsciente trabalha procurando o que mais deseja. E como é forte essa vontade.

Sua nova invenção é uma versão cinematográfica reinventada do filme de TV homônimo, com roteiro a cargo do autor original, Joe Ahearne (da série de TV Os Demônios de DaVinci, 2013) e do colaborador usual de Boyle, John Hodge (Cova Rasa, 1994; Trainspotting, 1966; Por Uma Vida Menos Ordinária, 1997; A Praia, 2000). Corte para a apresentação de seus personagens, cenário e situação.

Simon (James McAvoy), leiloeiro que deve até a alma em dívidas de jogo, se une a uma gangue de criminosos para roubar um quadro que vai a leilão. Durante a operação, rigorosamente planejada, o leiloeiro sai da linha e toma uma pancada na cabeça.

Após o roubo vem a surpresa: o quadro está escondido e some junto com a memória de Simon. Os criminosos, liderados por Franck (Vicent Cassel), não poupam o comparsa desmemoriado e aplicam altas doses de tortura. Sem resultado, a saída é contratar uma terapeuta que usa a hipnose para tratar seus pacientes.

Danny Boyle
A especialista em hipnose Elizabeth (Rosario Dawson) pergunta à Simon: “Você quer lembrar ou quer esquecer?”.

E a mesma pergunta pode ser aplicada aos espectadores dos filmes de Boyle, incluindo este último. A resposta é que, mesmo com uma narrativa que pode tropeçar em suas próprias reviravoltas, sua condução acelerada ainda se sobressai e impressiona o espectador ao fazê-lo não esquecer jamais de sua marca.

“Em Transe” apresenta uma cena em que uma cabeça partida ao meio que ainda conversa enquanto sangra numa sequência sensacional. Entra para o hall de cenas como o antebraço esmagado de 127 Horas (2010), o banho de cocô em Quem Quer Ser um Milionário? (2008) e um mergulho na privada de Trainspotting – Sem Limites (1996).

O elenco
Basta Vicente Cassel aparecer que a pressão funciona. De presença física a mudança de movimento a cada virada na trama. Rosario Dawson é um enigma. Um personagem imprevisível e quem tem o poder na mente (hipnose) e no corpo (a sedução). James McAvoy aparece com a ingenuidade da perda da memória, mas assim como o filme, pode mudar a qualquer momento. A justificativa de suas ações serão desvendadas somente ao final de tudo.

Veredito
O sonho é molhado. A lembrança é viva. O inconsciente é manipulado. A sedução pode ser seduzida. Um roubo é praticado dentro do roubo. O que é real? O que é imaginação? E tudo pode terminar em fogo. Afinal, “você quer lembrar ou quer esquecer?”. Decifre “Em Transe” e escolha a sua opção.

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