Crítica: David O. Russell trapaceia para tentar ganhar o Oscar em “Trapaça”

“- Deixe-me mostrar uma coisa. Esse Rembrandt aqui. Pessoas do mundo todo vem para vê-lo (Christian Bale)

– Sim, ele é bom. (Bradley Cooper)

– É falso. (Christian Bale)

– Como é? É impossível! (Bradley Cooper)

– As pessoas acreditam no que escolhem acreditar. (Christian Bale)

– O cara que pintou isso era tão bom que se tornou real para todos. (Bradley Cooper)

– Qual era o mestre? O pintor ou o falsificador? (Christian Bale)”

Trapaça (FOTO: Sony/divulgação)

Esse diálogo entre Christian Bale e Bradley Cooper poderia ser a síntese de Trapaça (American Hustle, 2013) de David O. Russell. Uma comédia de golpe com um elenco implorando atenção, um diretor que imita o estilo setentista de Martin Scorsese e uma historinha com uma virada que não surpreende. É aquele filme que quer se parecer bacana, cool, mas na verdade tropeça em si mesmo e não tem fôlego para se tornar memorável.

A trama versa sobre trapaceiros, FBI, máfia, política e amor. Após um golpe mal sucedido, uma dupla de trapaceiros, Irving (Christian Bale) e Sidney (Amy Adams), são forçados a colaborar com um agente do FBI (Bradley Cooper) infiltrando na máfia. Quando a missão passa a envolver um político local (Jeremy Renner, esforçado) de pretensões nacionais, as coisas ficam mais sérias. E piora quando a desequilibrada esposa (Jennifer Lawrence) de Irving aparece, enquanto Sidney seduz o agente do FBI.

Indicado para o Oscar por sua atuação, Christina Bale agarra seu personagem (Irving) com unhas, pança e perucas. Inclusive Bale já ganhou um Oscar, o de coadjuvante por O Vencedor (2010), filme também de David O. Russell.

Voltando a falar de perucas, a apresentação de Irving é incrível ao se assumir como uma figura patética. Ele é a escória, a casca da ferida da sociedade, que anda pelas fendas abertas pelas possibilidades de viver de golpes em desavisados. E encontra sua alma gêmea na “inglesa” americana Sidney (Amy Adams), que vive de ser quem não é. O ponto alto dos dois é uma cena perdida no filme, em que Irving cria um clima para conquistá-la dentro de uma máquina de expor roupas na lavanderia. O que seria seu negócio sério, na verdade serve (ora mais) para lavar o dinheiro sujo. Outros bons momentos custarão a aparecer.

Se não soubéssemos que Sidney (Amy Adams) é uma trapaceira, ela possivelmente poderia se deixar enganar pela doçura e de nobre sotaque inglês. Vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz (comédia ou musical), Amy Adams, outra que atuou também em O Vencedor (2010), é o belo doce azedo da trama. De amante de Irving a interesse romântico de Bradley Cooper conforme a necessidade.

Repare que cada vez mais que ela se engraça por Cooper, seus cabelos ficam tão enrolados quanto o agente do FBI. Essa é a proximidade gerada pelo roteiro, mas na sequência crucial entre os dois, dentro do banheiro da boate, a ordem da trapaça quebrada com uma verdade proferida (será?) e o roteiro (assinado por Russell e Eric Warren Singer, do ok Trama Internacional, 2009) desanda para a incerteza. E incomoda com sua trama marcha lenta.

Indicado para o Oscar de coadjuvante (que eu não sei porquê), Bradley Cooper (indicado ao Oscar por seu trabalho anterior com Russell – O Lado Bom da Vida), por sinal, aparece completamente perdido num personagem ruim. Desesperado por autopromoção e apaixonado por uma fora da lei. Seus piores momentos são o do descontrole emocional – exagerado, que chega a atacar o seu próprio chefe. Talvez era para ser engraçado, pelo absurdo, mas é apenas vergonhoso mesmo.

E Jennifer Lawrence? Ela é realmente uma figura carismática, mas, mas… Soa completamente mal escalada para um papel de uma pessoa que supostamente é castigada pela vida. O que resta a ela? Cantar ‘Live and Let Die’, seduzir a esmo, exagerar, exagerar e exagerar. Oscar de atuação mais over do ano para ela, que já ganhou o Globo de Ouro e concorre à estatueta de coadjuvante, por pura purpurina.

Para onde afinal David O. Russel aponta? O estilo empregado de um sub-Scorsese muitas vezes é apenas uma cópia pálida de algo já feito. Vencedor do Globo de Ouro de melhor filme (comédia ou musical), a fita concorre com toda a banca que 10 indicações ao Oscar (incluindo melhor filme, diretor e roteiro original) pode suscitar. Mas nunca impressiona.

David O. Russell tem demonstrado ser um diretor (e roteirista versátil). Emplacou seus três últimos (e diferentes) filmes – O Vencedor (2010), O Lado Bom da Vida (2012) e esse Trapaça (2013) – no Oscar e Globo de Ouro quanto nas principais. Em comum nas obras, a natureza de seus personagens, com marcas da vida que o levam para a margem da sociedade. Mas ainda considero Três Reis (1999), de humor negro refinadíssimo e que carrega bem na crítica à política militarista americana – a sua melhor obra.

Com um desfile de insinuações em forma de figurinos setentistas em Jennifer Lawrence e Amy Adams, o filme merece mesmo é um Oscar de melhor decote. E só. Ao final de Trapaça, chegamos ao ponto de partida e, como diria Christian Bale, nota-se que “as pessoas acreditam no que escolhem acreditar”. Pois é David O. Russell, desculpe aí, mas você não me trapaceou.

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