Crítica: ‘Cinquenta Tons Mais Escuros’ reforça o estereótipo de mulher-objeto

Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker, 2017): o pior filme do ano. Até aqui.

Com sequências previsíveis, personagens unidimensionais, suspense fake e momentos “quero-ser-sexy”, ornamentado de uma grande playlist do Spotify e uma mensagem extremamente perigosa, Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker, 2017) de James Foley, é um amontoado de clichês. Em resumo, a continuação de Cinquenta Tons de Cinza (2015) mantém o nível do anterior, e é ridícula.

O roteiro é tão ruim (e extremamente risível), que não sei como em todos os diálogos entre Grey e Anastasia eles simplesmente não caem na gargalhada. Levar aquele troço a sério é trabalho pesado.

Na trama, incomodada com os hábitos e atitudes de Christian Grey (Jamie Dornan), Anastasia (Dakota Johnson) decide terminar o relacionamento e focar no desenvolvimento de sua carreira. Ele, no entanto, insiste em continuar com a relação, aceitando as regras dela. É como se o primeiro filme não tivesse acabado, e o mesmo tema – Anastasia deve se entregar aos prazeres proibidos de Christian – se arrastam por mais duas horas.

A questão de conviver com os jogos sexuais do milionário, e de se tornar sua posse, é apresentada como algo muito forte e difícil para Anastasia (e deveria mesmo ser), mas tal cortejo acaba funcionando, e as coisas se resolvem em um jantar e cinco minutos depois. Piora, pois Mr. Grey admite que é um sádico, e que parece não fazer nada para mudar tal situação. Na verdade ela reclama, mas se entrega como uma mulher-objeto.

Achou pouco? Tem mais. Cena após cena, Christian vai enfileirando atitudes machistas atrás da outra, deposita dinheiro na conta da namorada, a trata como produto (quantas vezes ele não a leva, como uma mercadoria?!), e a faz até mudar de ideia quanto à presença em um evento importante do seu trabalho.

Fazer um jogo erótico, brincar um com o outro, satisfazer fantasias, às vezes até passar um pouco dos limites e gozar, são coisas completamente normais e irrestritas em uma relação. O problema aqui é que, pelo menos para Mr. Grey, tudo parece ser uma questão de dinheiro. Ou simplesmente as coisas podem ser resumidas à: ele compra tudo para ela, portanto ela faz tudo que ele quer, não tem voz ativa e fica tudo por isso mesmo. Eu pergunto: esse é mesmo o homem dos sonhos da mulher? Isso é que se chama de uma relacionamento?

Sobre o roteiro, há a inserção de flashbacks (toscos) sobre a infância de Mr. Grey, como se aquilo conseguisse justificar em alguma coisas suas atitudes ou mesmo aprofundar o seu personagem. Repare nas paredes do quarto antigo de Mr. Grey, pôsteres de combates do UFC e de A Batalha de Riddick (2004), uma sci-fi brega terrível. Que formação cultural esse rapaz teve, hein…

Com a entrada do personagem do chefe de Anastasia, a tensão entre dois homens disputando sua atenção é sugerida de uma forma bem deselegante. E que funciona tão mal (ou até mesmo pior) quando a do amigo fotógrafo no primeiro filme. Que por sinal, José (Victor Rasuk) reaparece aqui, mas apenas para compor a paisagem.

Comparando com a primeira adaptação – da trilogia escrita pela inglesa E. L. James e que termina com 50 Tons de Liberdade (2018) – temos novamente um bom diretor atrás das câmeras, James Foley, mas de altos e baixos. Aqui não conseguimos enxergar o responsável por vários episódios da série House of Cards (2013~), de Hannibal (2013~2015) e até Twin Peaks (1990-91), nem de filmes fortes como O Sucesso a Qualquer Preço (1992) ou Caminhos Perigosos (1986). Tampouco atinge o nível uma diversão escapista e funcional do psico-suspense Medo (1996), do suspense de tribunal O Segredo (1996) ou mesmo da comédia romântica Quem é Essa Garota? (1987). Está algo mais para a bobagem, tipo um deslize seu, chamado A Estranha Perfeita (2007).

Sem substância (no caso, um roteiro horroroso e sem nenhum tipo de sustentação), fica difícil apenas ornamentar sequências com alguma sofisticação. O soft porn segue com muita nudez, e até que o sexo bem comportado do primeiro (mas vendido como sádico), avançou algumas casas na ousadia, apesar de uma cena copiada de Invasão de Privacidade (1993), no qual Stephen Baldwin desafia que Sharon Stone tire a calcinha em pleno restaurante. Aqui a pequena mudança é de o controlador Cristian ordena mesmo. E frente aos jogos eróticos do maluco cheio da grana, agora temos uma Dakota Johnson (Aliança do Crime, 2015) com hipersensibilidade. E tome mordidas nos lábios, pés contorcidos e uma coisa de tocou-gemeu, impressionante.

Perceba que para gerar um ritmo constante de videoclipe à obra, a cada cinco minutos temos uma nova canção para embalar a “historinha” de Mr. Grey e Anastasia. Sim, existe uma linha de mistério, mas a tentativa de incutir algum suspense para dispersar a atenção é completamente fake. A sequência do helicóptero é resolvida de uma hora para outra, a “construção” do vilão (Eric Johnson, um horror de ruim), e uma consequente preparação para um terceiro capítulo é rasa e meia. Acreditamos até que o momento do baile de máscaras algo vai surgir dali, uma revelação, uma tensão erótica… Mas não passa de pura frustração, ou como acompanhar um baile de De Olhos Bem Fechados (1999) versão censura livre.

Jamie Dorman – que entre um 50.1 (2015) e sua continuação (2017), estrelou o filme original da Netflix, ‘Jadotville’ (2016) – segue o padrão de qualidade de atuação da ‘Escola Cigano Igor’. Boneco de cêra ganha Oscar na frente disso aqui. Seja na demarcação dos limites com batom, ou nas reações de fazer uma moça de cachorrinho, e mesmo nas tentativas de conversa com o a mulher que pode mudar o rumo da sua vida. Ao assumir sua doença, ou exibir sues arquivos de submissas – sim, sem levar em consideração o nome de cada uma, pois são apenas um objeto para satisfazer seus desejos – o bonitão arrebenta na canastrice.

Ainda temos no elenco, duas vencedoras do Oscar de coadjuvante. Kim Basinger (por Los Angeles – Cidade Proibida, 1997), e Marcia Gay Harden (por Pollock, 2000), pagando as contas. A primeira, que deveria ser uma antagonista forte e que puxaria algo do passado do protagonista, mas que apenas passa vergonha. Logo ela, a musa/estrela de 9 e Meia Semanas de Amor (1986), esse sim, um filme erótico com algo a mais. A segunda apenas bate o ponto.

Bate novamente na tecla: Cinquenta Tons Mais Escuros (2017) tem uma mensagem muito perigosa às mulheres: elas são, afinal, um produto de quem pagar mais (ou paga tudo que elas queres, e aqui, no caso, que por muitas vezes nem quer, mas é obrigada à aceitar)? Até mesmo temas como submissão e assédio sexual são tratados de forma insípida, sem peso algum.

Um recado para as Greyetes de plantão: Não me venha com essa de que “quem leu o livro não vai entender o filme ou conseguir captar tudo que está ali”. O princípio de qualquer adaptação cinematográfica – seja ela literária, de game, de um tabuleiro, de uma história em quadrinhos ou qualquer outra coisa que se leve às telas – é ter um roteiro que não precise de uma bula pré ou pós, e se baste na projeção. Primeiro, segundo e terceiro ato. Pois é…

Pelo conjunto de sequências risíveis, diálogos patéticos e um conjunto constrangedores de fatos, o filme é uma comédia involuntária hilariante. Mas na real, o romance dramático se leva tão a sério que é algo inacreditável para alguém que algum tipo de consciência e tino crítico para o que está acontecendo. Pior que o terceiro vem aí, e, entre uma transa e outra o clima de vingança foi plantado. Prevejo mais risos do que qualquer outra coisa.

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