Crítica: cinebiografia “Pelé” é pior que 7 X 1

Pelé: O Nascimento de uma Lenda (Pele: The Birth of a legend, 2016) de Jeff e Michael Zimbalist

Atleta do Século. Tesouro Nacional. Vencedor de três Copas do Mundo como jogador. Recordistas de gols (com 1.283) na história do futebol. Se é melhor que Maradona ou Messi, não consigo cravar nesse momento. Mas posso dizer com total convicção que a sua cinebiografia, Pelé: O Nascimento de uma Lenda (Pele: The Birth of a Legend, 2016), é pior que 7 X 1 em semifinal de Copa.

O drama, que insiste tediosamente na mensagem “os humilhados serão exaltados”, estreia após sucessivos atrasos, não apenas de produção, mas também adiado pela própria distribuidora nacional. A produção internacional, planejada originalmente para estrear durante a Copa do Mundo de 2014, é totalmente falada em inglês.

Na trama, acompanhamos Dico, ainda criança, aos seus primeiros passos (e conquistas) na Seleção Brasileira, já como Pelé, em 1958. Produzido tanto para ser apreciado pelo público geral do cinema, quanto para o amante do futebol, não só é ineficiente para ambos, como passa uma impressão inversa como produto final.
Acompanhe.

Para o primeiro caso, é dramaticamente raso, não contem grandes estrelas no elenco, e soa como um produto específico aos amantes do futebol. Portanto, vai para o banco de reservas nas opções entre os filmes em cartaz.
Aos loucos por futebol, é um longa curioso, mas representativamente ridículo, e com alguns furos dignos de cartão vermelho.

O primeiro jogo em que se destaca na Copa de 1958, Brasil 1-0 País de Gales (vitória com gol antológico de Pelé), pelas quartas de final, é ignorado. Já na semi-final contra a França, um erro futebolístico: quando o jogo estava 1-1, quem desempatou foi Didi, num belo chute de fora da área. Na tela, para efeitos dramáticos, Pelé decide o jogo, e faz três gols em sequência. Sim, ele marcou três gols, mas quando o jogo já estava 2-1.

Em “Pelé”, acontece também algo tecnicamente impossível. Existe uma transmissão dos jogos pela TV, como se fora ao vivo. Na época os jogos eram filmados em 16 mm e retransmitidos em seguida. Jogos ao vivo apenas via rádio. Pois é.

Plasticamente é tão bem filmado, que a realidade retratada se torna irreal, como na partida com a bola de meia, acrobaticamente exagerada, ou mesmo nos treinamentos do jovem Dico e seu pai com as mangas. Em alguns momentos mais parece uma propaganda de material esportivo, com uma mensagem motivacional incutida, quando os jogadores do Brasil equilibram a bola dentro de um hotel, por exemplo. Podemos tratar então que a fotografia entrou em impedimento.

Incessante, a trilha sonora (do vencedor do Oscar, A.R. Rahman, Quem Quer Ser um Milionário?, 2008) bate durante toda a sua projeção, sem espaço sequer para que o espectador respire ou tente se emocionar. O resultado dessa pressão mais parece um gol contra, que qualquer outra coisa.

Está virando goleada.

Sua abordagem narrativa, de colocar sempre o protagonista como um ser inferior, mas que chegará a sua hora de mudar tudo para sempre, carece de tato. Primeiro há a origem humilde, e o confronto com o patrão rico da mãe. Depois em campo, quando são chamados pejorativamente de “descalços” em sua primeira competição. No Santos, é repreendido por sua ginga, ou jogo primitivo. Já na Seleção Brasileira, é mestiço, o anormal, sem educação, o selvagem sem roupas ou modos apropriados. É uma intensa seleção de predicados, costurados sem qualquer tipo de sensibilidade, portanto, bola fora, longe do gol.

Sem entrosamento do elenco (Mariana Nunes – a mãe é a única que passa algum emoção –, enquanto Seu Jorge parece estar apenas se divertindo; Leonardo Lima Carvalho como o jovem Dico, e Kevin de Paula o Pelé, são sofríveis), somado à falta de habilidade (o inglês não naturalista chega a ofender de tão ruim), e uma equipe que não consegue vencer (a dupla de diretores e roteiristas, Jeff e Michael Zimbalist, parece muito impressionada com o próprio material, e figura retratada, contudo sem ganhos dramáticos), o resultado final de Pelé: O Nascimento de uma Lenda está mais para time de várzea do que campeão mundial.