Crítica: hits animam “Bohemian Rhapsody”, cinebio de Freddie Mercury

Bohemian Rhapsody (2018) de Bryan Singer (Co-direção: Dexter Fletcher, não creditado)

Mais que uma biografia musical de Freddie Mercury e da banda de rock (seria mesmo só rock?) Queen, Bohemian Rhapsody (2018) de Bryan Singer, celebra a história da conjunto inglês dono de uma lista gigantesca de hits. E são eles que embalam a história, que tem mais luz (naturalmente) em seu líder, nascido Farrokh Bulsara, em Zanzibar, ou melhor Freddie Mercury (Rami Malek). Um artista que desafia estereótipos e quebra convenções para se tornar um dos popstars mais amados do planeta. Acredito que nunca houve um band leader como ele. Do sucesso meteórico da banda, através de canções icônicas e o som revolucionário, à quase implosão quando o estilo de vida de Mercury sai do controle.

Mas… Pra quê tanto picote numa montagem extremamente videoclipada (principalmente nos dois primeiros terços)? Talvez para esconder as tantas quebras de ritmo de um filme cheio de problemas de produção, como a demissão de seu diretor original, Bryan Singer, após constantes desentendimentos com seu elenco (tendo à frente Rami Malek). Ou mesmo uma saída para simplificar a quantidade de acontecimentos em uma narrativa de fácil digestão. Acredito que até um pouco de cada, justificam a solução.

Bryan Singer é um diretor de altos baixos. Surgiu como uma grande surpresa lá em 1995 com Os Suspeitos, e O Aprendiz (1998), assinou quatro filmes da franquia de sucesso da Marvel, X-Men (2000; 2003; 2014; 2016), mas fracassou em Superman – O Retorno (2006) e Jack, o Caçador de Gigantes (2013). Quem completou o filme a toque de caixa foi Dexter Fletcher (não creditado), que se deu bem com a história real de Voando Alto (2015), e que promete um retrato mais pesado e louco de Elton John, na vindoura biografia, Rocketman (2019).

A narrativa se sustenta em mostrar como surgiram as criações de músicas incríveis, apresentações musicais, e muitas de seus conflitos pessoais (da banda e algum peso da família). Mas tudo é orquestrado com um senso de humor afiado. Isso quer dizer que, com esse tom, o estilo de vida do seu protagonista mostra-se errático, mas com uma abordagem amenizada (incluindo a sua preferência sexual).

Há algumas mudanças em relação a cronologia dos fatos, como opção de atingir maior dramaticidade no filme, que até funciona em tela, mas pode chatear os maiores fãs da banda. O show do Brasil “com o maior público pagante da história” (no Rock in Rio 85) ocorreu anos depois da primeira vez que tocou em terras brasileiras, mas no filme são uma só apresentação. A utilização da canção “Who Wants to Live Forever” (de Highlander, 1986) foi muito bem escolhida para seu momento dramático, mas só foi lançada em um ano diferente daquele que ele descobre estar com Aids.

Quanto ao elenco, não apenas Rami Malek impressiona em sua recriação de Freddie Mercury (personificação física perfeita, gestual impressionante, mas dublado nas sequências de shows), como também seus companheiros de Queen (Gwilym Lee é Brian May; Ben Hardy é Roger Taylor; e Joe Mazzello é John Deacon).

Por fim, Bohemian Rhapsody – o filme – revive meticulosamente a vibrante apresentação no Live Aid, em um Wembley lotadíssimo. Um bom filme, mas diferente do seu protagonista, não precisava ser tão simples.