Crítica: Aventura à moda antiga, “A Grande Muralha” supera falhas com entretenimento

Parceria de um grande estúdio de Hollywood, e o cinema chinês, A Grande Muralha (The Great Wall, 2017) de Zhang Yimou é uma aventura à moda antiga, que consegue superar suas falhas com o bom e velho entretenimento. E o confronto inicial já mostra ao que veio a produção, sem nem pestanejar.

A aventura fantástica se passa no século XV, William (Matt Damon) e Tovar (Pedro Pascal) são dois mercenários em busca de “pó negro” (pólvora). Depois de escaparem do ataque de uma criatura no deserto, acabam aos pés da Grande Muralha. Uma vez no local, acabam aprisionados pelos guerreiros chineses, que estão na iminência de sofrerem um ataque.

De início, o centro da história é a histórica Muralha da China, que demorou 150 mil anos para ser construída. O mote é bem interessante, e apresenta que a sua principal função é a de proteger a China (e o consequentemente o resto do mundo) de monstros mutantes que aparecem a cada 60 anos.

Toda essa invenção veio da cabeça de um trio de roteiristas, Edward Zwick e Marshall Herskovitz, ambos de O Último Samurai (2003), e Max Brooks, o mesmo de Guerra Mundial Z (2013), e a história ainda passou por dois remendos. Primeiro um tratamento da dupla Doug Miro e Carlo Bernado, os mesmos de Príncipe da Pérsia (2010) e O Aprendiz de Feiticeiro (2010), e depois contou com Tony Gilroy, que havia trabalhado com Matt Damon nos filmes de Jason Bourne, para arredondar a história final. Funcionou, apesar das falhas.

O núcleo do Imperador chega a ser patético, e o embate final é exagerado, além de soar muito apressado. E sim, existe o agravante de que, basta o homem branco de fora chegar para enfrentar de forma diferente uma situação que perdura há séculos. Mas tanto o amparo oriental, quando a representação da cultura chinesa e suas apresentações estão todas aqui.

Para dar vida aos monstros, há um bom uso de CGI nos efeitos visuais, mas o conjunto também conta com uma produção mais realista e coreografias de encher os olhos. Na produção temos o uso de muitos figurantes, as armas orgânicas/manivelas gigantes em meio às batalhas (uso de lanças e arco e flechas, sensacionais), as formações do exército, seus tambores rufando… Tudo funciona perfeitamente, exceto por algum exagero nos figurinos (o exército sem nome é divido em cores vibrantes com armaduras bem especiais, além da realeza dourada) e o embate final, apressado.

Diretor premiado com o Leão de Ouro em Veneza (A História de Qiu Ju, 1992; Nenhum a Menos, 1999), com o Urso de Ouro em Berlim (Sorgo Vermelho, 1987) e indicado ao Oscar por Lanternas Vermelhas (1992), aqui Zhang Yimou acelera ainda mais o seu estilo aventuresco. Seria um algo mais do que foi visto com sucesso nos ainda melhores Herói (2002 – indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar de melhor filme estrangeiro pela China) e O Clã das Adagas Voadoras (2004).

Assinado pelo mesmo autor de temas da série Game of Thrones (2011~) e do filmão de monstros X robôs, Círculo de Fogo (2013), alguns podem até ver semelhanças e perceber uma trilha sonora derivativa aqui, em A Grande Muralha. Eu entendo, na verdade, uma baita trilha assinada por Ramin Djawadi, que consegue elevar o ritmo de algumas sequências, bem auxiliado pelos efeitos e edição de som.

O maior destaque do elenco é feminino. Entre ensinamentos orientais, a luta pela manutenção da honra e o cumprimento de sua missão, quem domina a cena é a carismática personagem Lin Mei (Tian Jing), a determinada comandante do exército que defende a muralha. E olha, seu cabelo tem uma permanente inabalável, até na hora da batalha.

O espanhol Pedro Pascal (Narcos, 2015-16) é um excelente sidekick, e funciona muito como um companheiro de aventuras com objetivos obscuros. O veterano Andy Lau (que já trabalhou com o diretor em O Clã das Adagas Voadoras) é um ótimo e crível estrategista do exército. Já não se pode dizer o mesmo de Willem Dafoe (A Última Tentação de Cristo, 1988), como um prisioneiro covarde, ruim de dar dó.

Achei satisfatória a construção do personagem de Matt Damon, o hábil arqueiro William, que se transforma primeiro em herói por acaso (ou seria por sobrevivência?), para depois se entregar a uma missão maior que ele mesmo. O ator, que chegou a morar seis meses na China para se habituar aos chineses e sua cultura, continua com o carisma em alta, e seus parceiros de tela (os citados Pedro Pascal e Lin Mei), ajudam bastante ao clima de fantasia e ação funcionar.

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