Crítica: assistir “Verdade ou Desafio” é mesmo um desafio de tão ruim

Verdade ou Desafio (Truth or Dare, 2018) de Jeff Wadlow

Deve ser difícil encontrar alguém que nunca tenha jogado, na adolescência, o tradicional “Verdade ou Desafio”. Os participantes, um por rodada, são provocados a revelar um segredo pessoal ou então a pagar uma prenda. E no filme Verdade ou Desafio (Truth or Dare, 2018) de Jeff Wadlow, jovens amigos começam a brincadeira numa viagem de fim de semana. Porém, o jogo está possuído por um demônio. A partir de então, quem não disser a verdade ou não cumprir o desafio morre. Em tese, ganha quem sobreviver ao jogo.

Levando em consideração que se trata de uma história adolescente, o argumento para o filme foi criativo e sustenta a trama até fim. Afinal, estamos todos num verdadeiro jogo cotidiano em que tudo o que a gente fala ou faz gera consequências. Quem nunca brincou de “Verdade ou Desafio”? Quem nunca foi colocado contra a parede e forçado a se expor, a revelar segredos, enfim a passar vergonha em público? E você? Teria algum segredo que jamais contaria, mesmo que isso custasse a vida de alguém?

Apesar da ideia interessante, o longa é mal construído, e o roteiro é falho. De início, uma filme marcado pelo tom dos smartphones, das redes sociais e dos canais do Youtube, tanto pelos enquadramentos quanto pela montagem. São jovens amigos que estão viajando e registrando os bons momentos. Sim, um começo agradável. Até que, de forma desnecessária para o enredo, as câmeras constantemente ficam nervosas, e a trilha é acentuada apenas com o intuito de forçar o susto.

Se algo parece perigoso, os personagens se aproximam; se eles precisam ficar juntos, eles se separam. Tudo bem clichê de filme de terror, né? Até aí tudo bem se tivéssemos uma história que envolvesse. Porém, basta um primeiro contato com o sobrenatural para que cada um deles rapidamente acreditem em tudo e não pensem que estão loucos ou algo do tipo. Por isso, a narrativa é acelerada, mas, mesmo assim, pouco interessante. Os personagens são rasos e o suspense exagerado.

O filme tenta abordar questões éticas envolvendo sentimentos como traição, amor e amizade que vão se confrontando conforme os segredos são revelados através do jogo. No começo do filme, a protagonista Olivia (Lucy Hale) chega a afirmar que entregaria a própria vida e a dos amigos para salvar a humanidade, declaração que se torna irônica com o desenrolar da trama. Assim, o roteiro, cheio de furos, perde o folego. Lá se foi a criatividade, e o filme sequer consegue ser assustador.

Facilmente o espectador percebe as verdades (segredos) de cada um. A situação é ainda pior, pois essa fita de terror tem um elenco fraco. Dentre os atores principais, Lucy Hale, Tyler Posey, Viollet Beane e Nolan Gerard Funk, temos jovens atores/cantores com os nomes mais ligados à televisão do que propriamente ao cinema. A protagonista, por exemplo, é mais conhecida pela série Pretty Little Liars. No currículo dela, alguns poucos filmes aborrescentes.

Verdade ou Desafio faz parte do catálogo da Blumhouse, produtora de Whiplash (2014) e Coora! (2017), indicados ao Oscar de Melhor Filme. Porém, ela é mais conhecida por fazer filmes de terror de baixo orçamento. Definitivamente, não é o caso da película de Jeff Wadlow, que custou três milhões e meio de dólares e só assusta de fato quem é muito medroso. Diante de um filme tão caro, ele deveria ter sido bem produzido. Mas, em linhas gerais, é bem ruim.

O diretor, que é também um dos roteiristas, tem no currículo outros trabalhos mal sucedidos, como Kick-Ass 2 (2013) e A História Real de um Assassino Falso (2016). Verdade ou Desafio só faz engrossar a lista. Mas, se você gostou de filmes como Premonição (2000), talvez goste desse também. O ensejo é o mesmo: jovens que precisam, um por vez, driblar a morte e passar a rodada para o próximo. Então, boa sorte! Afinal, só assim mesmo pra poder indicar esse filme: como um desafio, porque a verdade já foi dita.