Crítica: amar é verbo proibido no mundo do belo e triste “Lady Macbeth”

Lady Macbeth (2016) ou amar, verbo proibido

“Sabe que não vou me separar de você enquanto eu viver? A qualquer custo, eu estarei contigo. Até a cruz, até a prisão, até o túmulo, até o céu.” (Lady Macbeth, 2016)

Aprisionada ao seu véu de noiva, ela olha de canto de olho aquele ser estranho ao seu lado. Está ali por obrigação. Tem medo, receio do que pode acontecer consigo a partir dali.

Logo na primeira noite, a situação fica bem clara. Tudo o que se espera dela é obediência – para não dizer subserviência. Ele adentra o quarto com passos de gigante, parece uma ameaça à pureza da moça. Parece até respeito, mas é medo mesmo, onde respirar um ar puro não é uma opção, e o clima é mesmo o de pura opressão.

Foi um casamento arranjado. Katherine (Florence Pugh) não sabia nem quem era Boris (Paul Hilton). Foi “comprada” junto com um pedaço de terra pelo, sogro, (Christopher Fairbank). Para os homens, a personagem principal de Lady Macbeth (2016) de William Oldroyd, é apenas mais uma propriedade.

No compasso da espera, vira prisioneira da sua própria casa e ela mais parece um animal de estimação. O tratamento da criada, Anna (Naomi Ackie), vira tortura. O cabelo é escovado com força. O corpete é muito apertado, o que a deixa sem ar. Ela respira com dificuldade. E escutamos isso. E esse é o resumo da sua vida (infeliz).

O tique do relógio demonstra o peso do tempo. Tic tac. Tic tac… E o tempo perdido, percebe ela, é algo que nunca mais terá de volta.

Adaptação do romance russo de Nikolai Leskov (Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk), o drama mergulha com firmeza na posição minimizada da mulher do século 19, onde os homens são os provedores da casa, e seu papel se resume ao de procriar herdeiros para a família. E de preferência, dando luz à novos homens.

Originalmente a trama se passa no interior da Rússia, mas a trama é levada aos confins da Inglaterra do mesmo período. Poderia ser, na verdade, em qualquer parte do mundo, infelizmente.

Em um compasso ao mesmo tempo elegante e sufocante, o diretor William Oldroyd põe Katherine (Florence Pugh) sempre ao centro da tela. Mas qual o papel que ela tem naquela casa? Na “família”? Na sociedade? Não participa das conversas, não tem vida própria. É um mero enfeite ao seu senhor.

Imposta a não dormir até que o esposo volte aos seus aposentos, bêbado, é obrigada a se despir, e como numa execução sumária, que olhe para a parede enquanto ele tenta encontrar algum prazer sozinho, apenas olhando para a sua “presa”. Presa, enjaulada, torturada por um sentimento inexistente.

E em meio ao cansaço de não fazer nada, a tentativa de resistir à dor do desespero de não ser nada, aparece em pequenas ações, com um sorriso de desprezo. Pode ser uma reação lenta, mas talvez haja alguma resistência por vir. Começam a surgir os questionamentos.

Longe do marido e sogro, ambos em viagem, é hora de conseguir abrir a janela e respirar um ar puro, de sair para dar uma volta. O contato com o mundo. O vento batendo forte… Um passeio no campo… Há sorrisos até, olha só.

E quando a incorreção dos empregados aparece, o mesmo uso da mulher como mercadoria mexe de novo com Katherine. Parece que finalmente ela lutará contra isso. Surge uma sensação de perigo. Vergonha, inquietação e desejo reprimido se misturam. Distante da postura de rigidez usual, ela solta o cabelo, faz contato visual com Sebastian (Cosmo Jarvis) e um trovão anuncia ao meio de uma ventania, que as coisas podem mudar.

Lady Macbeth é um filme de sentidos. Do olhar trocado que gera a fagulha adormecida da paixão. Da sua ausência gritante do toque à sua necessidade. O cheiro da luxúria que paira no ar, do paladar da comida e do gosto que a pele tem. Mas também de pulsações. De suspiros. De gemidos. De sussurros. Da respiração ofegante. E muito se deve à construção e entrega da jovem Florence Pugh, como a doída esposa.

Nada de trilha sonora para embelezar ou mudar o que está posto em tela. Tudo ao natural. Como a sua fotografia precisa, que ajuda a acompanhar a mudança de comportamento da protagonista, toda baseada em uma iluminação de velas (ou foi feita para aparentar que é), ao nascer do sol e ao fim do dia.

Quando o não quer dizer sim, ela mesma deixa claro. Sempre foi assim nos relacionamentos humanos. E Katherine, no fundo, quer que a selvageria a domine. Ela precisa de carne, ela precisa de vida. Ao despertar, um sorriso pleno enche a casa de uma alegria até então inexistente. Uma pequena vitória interna abre para si, um fio de esperança. E assim, o desejo transborda e passa a dominar o seu dia a dia.

“Ela fica inquieta quando fica amarrada muito tempo”, diz Sebastian (Cosmo Jarvis), ao passear com a cadela da casa. “Ela estava. Amarrada há muito tempo”, rebate Anna (Naomi Ackie).

Eles podiam estar falando da cachorra, que passeava com a respiração ofegante com o funcionário da casa. Mas na verdade, Anna, estava falando mesmo é de sua senhoria.

Mas a sociedade machista não perdoa. O clima volta a ficar pesado, e a tragédia paira no ar, ao que parece, sem caminho de volta. Em um mundo onde é comum uma empregada ficar de quatro para ser tratada feito um animal por algo que não fez, e soar completamente normal, pode se supor que o mundo daquela época não estaria preparado para que uma mulher tivesse seus desejos atendidos. Ao que parece, amar, era verbo proibido. E tudo que podemos fazer é sofrer junto com a protagonista. Até a cruz, até a prisão, até o túmulo, até o céu.

Texto originalmente publicado na revista Movimento, nr. 1, publicação da Aceccine – Associação Cearense de Críticos de Cinema, em Agosto/2017.