Crítica: “A Freira” não é bom nem com reza braba

A Freira (The Nun, 2018) de Corin Hardy

A Freira (The Nun, 2018) de Corin Hardy, é o ápice de como uma imagem perturbadora pode virar tema de um filme costurado pelo que os americanos chamam de “scary bumps”, ou aqueles sustos que fazem o espectador pular da cadeira, mas que imediatamente esquecem a razão. Mas isso seria suficiente para segurar um filme inteiro? Vamos voltar um pouco no tempo.

Invocação do Mal (The Conjuring, 2013) apresenta uma história assustadora do casal Warren – Lorraine, médium clarividente, e Ed, demonologista – que vão enfrentar um fenômeno paranormal na casa da família Perron.

Palmas para o cineasta James Wan, que, ao investir toda sua técnica e sacadas por bons sustos a favor da história, que se apropriou das muitas histórias do casal Warren e criou um universo próprio do horror. No filme, a boneca Annabelle faz uma ponta, e é citada como a síntese do mal.

Diante do burburinho, a tal boneca maligna, Annabelle (2014) ganha um filme só seu. Novamente seu público é monstruoso para um filme especialmente fraco, barato, mas cheio de sustos do nada.

Com o público aceso, era hora de voltar para “casa” e fazer Invocação do Mal 2 (2016). Roteiro nos conformes, história forte e sustos a valer. Bilheteria segue no fluxo, e é aqui que entra A Freira. A figura apareceu como uma arte perturbadora em um quadro, e depois como uma visão de Lorraine Warren (Vera Farmiga) na continuação. A imagem causou comentários muito empolgados sobre a possibilidade de voltar à franquia.

Seguindo a programação, teve a prequel de Annabelle: A Criação do Mal (2017), para se descobrir a “origem do mal”. De novo uma pura tentativa de sustos pelos sustos, com um pouco mais de sucesso que seu antecessor.

Cá estamos com A Freira (2018). E mesmo com um resultado nem tão assustador, temos que reconhecer Wan. A partir da figura de uma freira demoníaca, criou-se uma história com muitas possibilidades. O clima é sombrio, e há um mistério a ser desvendado. Mas a grande questão é que sua história não se sustenta.

Diante do suicídio de uma freira nos confins da Romênia, o Vaticano convoca um padre veterano em exorcismos e uma noviça para investigar o ocorrido. Nem o tal padre acredita que há sentido nisso. Nem a noviça. Pois bem, mas a justificativa de que tudo tem uma razão permanece como tentativa sem sucesso.

Os ditos sustos não provoca o medo alarmado. Pontualmente só me surpreendi em duas sequências, e que realmente fazem algum sentido para o fiapo de história. O resto – padre no caixão, os corredores escuros, o menino que pede ajuda sem ser atendido – tudo não passa de tentativas visuais criativas, porém vazias. Ao final, A Freira (2018) decepciona, não é bom nem com reza braba.

 

  • Texto originalmente publicado no Jornal O Povo, 12 de setembro de 2018, no Vida & Arte.