Crítica: a descoberta do primeiro amor é tema do forte “Me Chame Pelo Seu Nome”

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017) de Luca Guadagnino

“Ele chegou cansado, invadiu o meu quarto no meio da tarde e por lá dormiu até de manhã. Poderia ser mais um pupilo do meu pai, mestre de artes, em sua casa de veraneio no interior da Itália. Poderia também ser apenas mais um verão de flerte, o primeiro sexo, e uma paixão passageira. Não foi nada disso. Foi um verão do primeiro amor, de tensão sexual reprimida, e depois liberdade. De descobertas, do gosto de não apenas uma fruta, mas de outras duas bem diferentes. O pupilo se tornou meu mestre, do desejo, da cama, do meu coração. Fiquei com a sua blusa, com seu cheiro, e com seu desejo dentro de mim. E definitivamente mudou a minha vida para sempre. Obrigado pai, obrigado mãe.”

O texto acima poderia muito bem ser de autoria do jovem Elio (Timothée Chalamet), de 17 anos, protagonista do forte drama romântico Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017) de Luca Guadagnino.

Sua via parece já muito bem pavimentada. Entre os estudos, ano após ano, seus verões se resumem a ler, sair um pouco e curtir com amigos e amigas no interior da Itália. Culto e muito bem educado, fala três línguas (italiano, francês e inglês), é capaz de ler música, toca piano, violão, e tem uma relação muito próxima com os pais (Michael Stuhlbarg e Amira Casar).

Mas com a chegada de Oliver (Armie Hammer), um acadêmico que veio ajudar a pesquisa de seu pai, as atenções da família ficam divididas também com o americano, que parece se sentir em casa desde o primeiro momento. Não apenas da família, mas também do jovem que vive seu rito de pasagem.

O que era atração, virou amizade. O que era curiosidade, virou amor. Mas não foi uma paixão de verão, é sim um amor que mudou para sempre a vida um jovem culto, e de bom coração. A mãe, encontra a própria história de amor do filho nas páginas de um romance clássico alemão. O pai, bem o pai, simplesmente sente tudo o que aconteceu. Sente, e até se identifica.

Capaz de transmitir do marasmo à todo o desejo do mundo, da alegria à tristeza lacrimosa, tudo que se percebe em tela é um grande domínio de cena do jovem Timothée Chalamet, da primeira à sua última cena. Já Armie Hammer é o tipo cara dura sedutor, mas que carece de alguma construção com suas constantes sumidas da trama. E mesmo com pouco tempo em cena, destaco também Esther Garrel, que faz de Marzia não apenas uma bela garota, mas alguém doce, em busca somente de um afeto verdadeiro.

Ao assistir as imagens da adaptação do romance homônimo de André Aciman pelas mãos do experiente James Ivory (dos premiados Uma Janela para o Amor, 1985; Retorno à Howards End, 1992; e Vestígios do Dia, 1993) e pelo olhar das lentes de Luca Guadagnino (do belo Um Sonho de Amor, 2009), parece que voltamos às memórias de alguém, em 1983. Entre um banho de piscina, um mergulho no mar ou visita ao lago, você até pode sentir aquele calor de um verão sensual cheio de descobertas.

E uma conversa entre pai e filho nunca foi tão bela, avassaladora e verdadeira, capaz de mudar até o patamar de uma obra muito bem filmada, que cresce com as despedidas, mas que ainda assim faltava algo para conquistar o espectador. Depois de ouvir Michael Stuhlbarg, não falta mais nada.