Comovente filme cubano já falava em (in)tolerância há mais de 20 anos

Fita cubana concorreu ao Oscar de Filme Estrangeiro

Por Fernando Vasconcelos Benevides*

Morango & Chocolate (Fresa y chocolate, 1993) de Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío.

Na Cuba de 1979, o regime ditatorial continua pujante. Qualquer abertura política é algo distante. Reatar relações diplomáticas com os Estados Unidos, então, não dá, sequer, para ser imaginado. A menos de 150 quilômetros da ilha, os Ianques são vistos como grandes inimigos. Neste contexto extremamente conservador, um estudante universitário procura se tornar um escritor, e um artista luta pela liberdade.

Diego (Jorge Perugorría) é um homem bastante culto, conhecedor dos mais variados gêneros artísticos. Ao tentar seduzir um militante da juventude do Partido Comunista, consegue a proeza de levá-lo para casa sob o pretexto de entregar algumas fotografias. David (Vladimir Cruz), estudante universitário de origem humilde, tem a curiosidade atiçada, mas nem por isso se coloca, de imediato, aberto a novas experiências e ideologias.

Durante a primeira visita à casa de Diego, David é colocado num mundo que lhe é estranho e, possivelmente, subversivo. A começar pela própria orientação sexual do anfitrião, vista como anormal. Um grande quadro abstrato logo na entrada da residência gera provocações na cabeça dele. Livros estrangeiros, chá da Índia, porcelana chinesa… Em meio a um regime político fechado, de onde Diego teria conseguido tudo aquilo?

“Morango e Chocolate” é um filme de planos fechados e diálogos extensos. A maior parte da história acontece num mesmo cenário: a casa de Diego. Nem por isso, o roteiro deixa de ser estimulante. Entre livros, músicas e demais obras de arte, as discussões políticas se afloram e a trama ganha tessitura. A Universidade e a própria cidade de Havana, ainda que em pano de fundo, também estão ali para compor o ambiente.

Apesar de o título remeter ao embate de gênero, o homossexualismo está longe de ser o tema central. A questão da tolerância cultural e ideológica é o que realmente é tratado pelo filme. A película não chega a ser anticomunista, mas procura mostrar que o conservadorismo cego é prejudicial e precisa ser vencido. Isso só é alcançado quando o respeito ao próximo prevalece diante do preconceito.

Jorge Perugorría e Vladimir Cruz em “Morango e Chocolate” (Fotos: Art Films)

Não é fácil, mas é dessa forma que as diferenças entre David e Diego são superadas, e a amizade dos dois, até então improvável, acaba sobressaindo. Mesmo tendo sido produzido na Cuba dos anos 90, “Morango e Chocolate” é uma bela lição para o Brasil de hoje, onde a intolerância política impera num país dividido e que não consegue enxergar que a nação só será fortalecida através da união e respeito entre os concidadãos.

Jorge Perugorría, pouco experiente na época, teve uma atuação convincente, conseguindo realmente incorporar a delicadeza, a audácia e, até mesmo, o sofrimento de Diego. Já Vladimir Cruz, no papel de David, quebra o senso de realidade do filme com uma interpretação amadora. Diante da câmera, ele aparece mais tímido que o próprio personagem que está interpretando, não conseguindo passar qualquer emoção para o expectador.

Contudo, isso não chega a ser motivo para deixar de conferir a película, que é belíssima e comovente. Dirigido por Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío, o longa está entre os mais admirados trabalhos cinematográficos de Cuba, tanto pelo público quanto pela crítica.

Eleito como um dos 10 melhores filmes do ano pelo National Board of Review, foi o primeiro filme cubano a concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Além disso, concorreu ao Urso de Ouro (melhor filme) e ganhou o Leão de Prata em Berlim (prêmio especial do júri) e o Teddy de melhor filme de estreia. Venceu também o prêmio honorário no Festival de Sundance, o Goya de filme estrangeiro (língua latina) e seis Kikitos no Festival de Gramado.

*Fernando Vasconcelos Benevides é jornalista e historiador.

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