Mais que um romance, “Com Amor, Simon” é uma inspiradora história de superação pessoal

Com Amor, Simon (Love, Simon, 2018) de Greg Berlanti

Não se trata de um filme sobre como é ser um adolescente gay, é mais específico, é sobre o quanto é complexo e delicado se assumir como homossexual perante amigos, família, escola etc. E a grande mensagem de Com Amor, Simon (Love, Simon, 2018) de Greg Berlanti, é bem simples: isso não deveria ser algo difícil. Alias, sequer deveria ser um problema, afinal heterossexuais não precisam avisar ao mundo a orientação que têm. Por que para gays precisa ser diferente? Nada há de errado no que eles sentem.

O protagonista, Simon (Nick Robinson), é um jovem de 17 anos que, desde os 13, sabe que é gay. Mora numa bela casa, com uma linda família e tem excelentes amigos. Contudo, aquele segredo o faz ser retraído, temeroso de perder a aceitação daqueles por quem tem afeto. Até que o surgimento de Blue, colega anônimo da escola que também é gay, muda o rumo da trama. Compartilhar experiências com o desconhecido é uma válvula de escape para toda pressão que vive.

E é assim que a angústia de Simon é retratada, de forma silenciosa, pelos cantos dos corredores, no box do banheiro, enfim nas mensagens através do celular. Blue e Jacques (codinome de Simon) se apoiam mutuamente para que, aos poucos, revelem a orientação sexual. Descoberto, Simon começa a ser chantageado e caí em situações delicadas. Para fugir da perseguição, do tabu criado pela sociedade, o protagonista acaba prejudicando os amigos e fere os sentimentos deles.

Apesar de tudo, não consegue manter o anonimato e é violentamente arrancado de dentro do armário, sendo exposto para toda a escola. A partir de então, câmeras lentas intensificam os olhares de reprovação sobre o personagem que passa a ser humilhado diante dos colegas. Agora, Simon precisa ser forte e escancarar de vez quem é, especialmente, para a família. Com medo de também ser exposto, Blue, que até então era um refúgio, resolve desaparecer.

Para Simon, resta uma última tentativa para descobrir a identidade de Blue. Nick Robinson, ainda que inexperiente, principalmente como protagonista de um longa, apresenta uma atuação sóbria e madura, conseguindo passar para o personagem toda a carga de angustia do adolescente que enfrenta questões complexas. Um papel duplo já que o próprio personagem finge ser quem não é, um hétero. Dessa forma, a interpretação de Robinson é um dos pontos fortes do filme.

Sem o apoio dos amigos e de Blue, por quem descobre estar apaixonado mesmo não conhecendo pessoalmente, tudo parece estar perdido. O pai machão (Josh Duhamel) se vê abalado com a notícia de que o filho é gay e, depois, tem uma reação surpreendente, o que mostra que o ator tem competência para papeis dramáticos. Temos ainda a experiente Jennifer Garner no papel da mãe serena e dedicada, um show a parte. Além disso, um ótimo elenco formando o grupo de amigos da escola.

A direção de Greg Berlanti, que já trabalhou a temática LGBT de forma mais adulta em O Clube dos Corações Partidos (2000), dá um tom leve para um assunto que, infelizmente, ainda é pesado. O filme não aprofunda polêmicas ou preconceitos. Talvez porque, de toda forma, desta vez se trata de um filme adolescente. O roteiro é uma adaptação do livro Simon vs. a agenda do Homo Sapiens, da escritora e psicóloga americana Becky Albertalli.

Em Com Amor, Simon, temos uma história que caminha para um conto de fadas, porém a contribuição do filme é maior: incentivar as pessoas a saírem do armário, a serem felizes. É claro que não é fácil, mas é justamente isso o que as silenciosas trocas de e-mail entre Blue e Jacques estão gritando: deveria ser! Além disso, o filme atinge também o público preconceituoso, que não respeita as escolhas pessoais, mostrando o quanto são ridículos.

E há uma trilha sonora que anima o ritmo da narrativa. Além disso, personagens e situações plausíveis fazem com que o público, de alguma forma, se identifique com diferentes aspectos do filme. Enfim, um drama com momentos hilariantes, sem deixar de ser sério, e com certo suspense (para saber quem é o Blue). Muito mais do que um romance gay, temos um enredo de superação pessoal. Enfim, uma história bela e inspiradora.